Tendência

Brasil no topo das exportações agrícolas: entenda os fatores técnicos que levam o País à liderança

Manejo de solos, adaptação de cultivares ao clima e qualificação profissional sustentam o protagonismo do país


O Brasil consolidou sua relevância no mercado agrícola internacional, segundo levantamento publicado pela revista britânica The Economist, como o maior exportador do mundo. O país responde por 12,5% de todo o comércio global, à frente dos Estados Unidos (EUA), com 12%. Sua participação equivale à soma das remessas de Argentina, Índia e Canadá, que ocupam, respectivamente, a terceira, quarta e quinta posições. Ao todo, as 15 principais nações exportadoras concentram 63,5% das vendas do planeta.  

Esse protagonismo se reflete no desempenho das lavouras. Segundo o 11º Levantamento da Safra de Grãos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a colheita deve alcançar 360,8 milhões de toneladas no ciclo 2025/26, um crescimento de 2,4% em relação ao período anterior, somando 8,5 milhões de toneladas a mais. A área cultivada está estimada em 83,5 milhões de hectares, com destaque para a expansão de soja, milho e sorgo.  

Por trás dos números, há décadas de adaptação tecnológica às características do território nacional. Para Marcelo de Almeida Silva, engenheiro agrônomo, conselheiro do Crea-SP representando a Universidade Estadual Paulista (UNESP) na Câmara Especializada de Agronomia (CEA), o resultado vem da consolidação de um modelo moldado pelas particularidades de solo, clima e biodiversidade locais. “O eixo desse avanço foi a correção química e física da terra no Cerrado. A Engenharia transformou solos historicamente ácidos e escassos em um ecossistema fértil de classe mundial, permitindo saltos contínuos de rendimento, até alcançarmos o protagonismo na exportação”, comenta.  

A vantagem competitiva brasileira reside na capacidade de cultivar ao longo de todo o ano. Em regiões de clima temperado, como nos EUA, o inverno rigoroso interrompe ou desacelera o ciclo agrícola. No ambiente tropical, havendo disponibilidade hídrica e temperaturas adequadas, é viável trabalhar com a sucessão de lavouras e obter duas ou mais colheitas na mesma área.  

Na avaliação da engenheira agrônoma e diretora técnica do Crea-SP, Gisele Herbst Vazquez (foto), essa intensificação é fruto do conhecimento científico voltado ao ambiente tropical. “Não basta ter sol e calor. É preciso desenvolver cultivares adaptadas ao fotoperíodo local. Esse modelo otimiza o rendimento anual por hectare sem a necessidade de incorporar novas áreas”, afirma.  

Operar em grande escala, no entanto, amplia a responsabilidade sobre o manejo e a qualidade do alimento. Segundo Gisele, a atuação do especialista em ciências agrárias é determinante para prevenir falhas operacionais que resultem em perdas econômicas, contaminação ambiental, resistência de pragas, degradação da terra ou barreiras comerciais.  

“A presença desse profissional assegura a atividade do produtor, atende ao consumidor e resguarda o próprio mercado nacional. A responsabilidade técnica não é mero trâmite burocrático; é um instrumento de qualidade, rastreabilidade e segurança”, destaca.
 

Manter a liderança global dependerá da capacidade contínua de converter inovação em eficiência e sustentabilidade. Para a diretora da autarquia, a qualificação das equipes no campo continuará sendo decisiva nesse processo. “O Brasil não exporta apenas soja, café, carne, açúcar, suco de laranja ou milho. Exportamos conhecimento acumulado ao longo de décadas de ciência tropical, construído pela Agronomia e transformado em resultados pela competência dos nossos agricultores”, conclui a engenheira agrônoma.  

Sobre o Crea-SP – Criada há 92 anos, a autarquia federal é responsável pela fiscalização, controle, orientação e aprimoramento do exercício e das atividades dos profissionais das Engenharias, Agronomia e Geociências. O Crea-SP está presente nos 645 municípios do Estado, conta com cerca de 380 mil profissionais registrados e mais de 110 mil empresas registradas.
 

Botão Voltar ao topo