Choro por ti, Argentina

Desfile na Avenida 9 de Julho em Buenos Aires
Texto e imagem: Wandell Seixas
Acompanho a Argentina há muito, onde o tango nasceu ás margens do rio da Prata, sua cultura, o futebol que deu Maradona e da então forte economia do continente. Em Buenos Aires, o impacto comercial é encontrado a partir da Avenida 9 de Julho. Pois, lembra a Avenida Paulista, em São Paulo. Até o Itaú tira “casquinha” com seu anúncio bastante chamativo. A minha intenção jamais foi de fazer propaganda do banco, mas porque era ou, ainda, é visto facilmente.
Percorrer o país, que detém grande parte da Patagônia, constitui algo singular. Mas, Buenos Aires lembra uma capital européia que apresenta uma cultura firmada pelos teatros, livrarias e áreas de lazer. Nos restaurantes, sem dúvida cardápio de primeira, uma tradicional parrilhada de provocar retorno a La Chacra. O doce de leite oriundo da Patagônia é sem comparação com o nosso porque não transparece o açúcar.
Estranho para nós brasileiros uma visita, incluída pelo tour, ao Cemitério Recoleta. Mas, ao chegar se descobre a razão: o jazigo de Evita, mulher de Juan Domingo Perón que governou o país por três mandatos. Mas, Eva Duarte de Perón, mais conhecida pelo diminutivo, foi uma política, ativista, atriz, filantropa que foi primeira-dama argentina de junho de 1946 até sua morte em julho de 1952. Seu túmulo é muito visitado até hoje.
O refrão ‘Não chores por mim, Argentina’ é um apelo emocional, onde Evita pede ao povo que não lamente por ela, pois sua alma e seus esforços estão dedicados à nação.
O regime militar chegou a sonhar em retomar as Malvinas, originariamente argentina, com sua força aérea promovendo um ataque surpresa. A retomada durou pouco. O Reino Unido reagiu. O saldo final do conflito foi a recuperação do arquipélago e a morte de 649 soldados argentinos, 255 britânicos e três civis das ilhas. Na Argentina, a derrota no conflito fortaleceu a queda da junta militar que governava o país. Mas, essa história demonstra o crescimento do país, apenas foi desconsiderado o fato de abrir um conflito com a poderosa Inglaterra.
Mas na última ida a Buenos Aires vi pedintes nas ruas, o que me chamou a atenção. E, passei a acompanhar mais de perto notícias da decadência do país. Agora, leio no Vatican News a confirmação da pobreza argentina. O relatório envolve instituições sérias como a Cáritas e o Observatório Argentino de Dívida Social (Odsa-Uca), da Universidade Católica da Argentina.
Segundo o documento “Raio X da pobreza na Argentina: realidade social e solidariedade, nossa esperança”, 10% da população argentina, de um total de 46,3 milhões de habitantes, passa fome com frequência. No primeiro trimestre deste ano, a pobreza envolvia 50% da população, enquanto a pobreza extrema chegava a 18%. Além do mais, 32% dos trabalhadores, regularmente empregados, pertencem à categoria de “trabalhadores pobres”, um número que atinge 50% e até 60% para os que trabalham na economia informal.
Na Argentina, uma pessoa em cada quatro encontra-se em uma situação de total insegurança alimentar, o que significa que é obrigada a saltar pelo menos uma refeição por dia, por falta de dinheiro. Para as crianças e os jovens a situação é pior ainda: o número sobe para 32%.
As problemáticas sociais, o elevado índice de inflação, a pobreza crescente, as drogas e a criminalidade estão esgotando a população. Muitos argentinos estão emigrando, especialmente para a Itália, devido à dupla cidadania de muitos filhos. No país do Papa Francisco, as pessoas estão passando fome de forma literal. A Cáritas Internacional, confederação de 165 organizações humanitárias da Igreja Católica que atua em mais de duzentos países, está dando o a sua contribuição a milhares de famílias argentinas.
É de dá nó na garganta. Por tudo, realmente choro por ti, Argentina, num plágio à letra de Tim Rice.