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Meteorologistas de 14 países discutem em SP o passado, presente e futuro das mudanças climáticas

Com 150 palestrantes e mais de 1,1 mil participantes, a 1ª Conferência Pan-Americana de Meteorologia (CPAM), realizada entre os dias 19 e 23 de agosto, no Centro de Difusão Internacional (CDI) da USP, em São Paulo, abordou desde os processos naturais responsáveis por oscilações atmosféricas importantes nas últimas décadas até as modificações nos padrões atmosféricos resultantes do conjunto de ações humanas ocorridas desde o início do século passado. Objetivo foi compartilhar conhecimento e caminhar por uma unificação dos sistemas de alerta de emergências naturais

À medida que os impactos das mudanças climáticas se tornam mais evidentes em todo o mundo, vem crescendo a demanda por informações meteorológicas e conhecimento sobre eventos extremos de clima e mudanças climáticas. Paralelamente, a comunidade meteorológica sentia falta de um espaço para discussão de questões importantes para o Brasil e demais países do continente. Partindo destas premissas, foi realizada entre os dias 19 e 23 de agosto, no Centro de Difusão Internacional (CDI) da USP, em São Paulo, a primeira edição da Conferência Pan-Americana de Meteorologia (CPAM), trazendo o tema “Mudanças Climáticas: Passado, Presente e Futuro”.

Recentes ondas de calor, frio, chuvas intensas que deflagram inundações, enxurradas e deslizamentos de terra, assim como secas e incêndios, tem afetado o mundo e resultando na morte de milhões de pessoas. “Fechamos a conferência com um número recorde de incêndios no estado de São Paulo, com a fumaça atingindo a região metropolitana”, comentou a Profa. Rachel Albrecht, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG-USP).

Os números recordes de incêndios na Amazônia e outras localidades do país reforçam a necessidade urgente de medidas mais eficazes para o controle do desmatamento e conscientização da população sobre os efeitos das mudanças climáticas”. Além disso, situações de insegurança hídrica, alimentar, energética, saúde e até segurança nacional podem ser geradas por crises climáticas, e medidas de emergência climáticas devem ser adotadas pelos países para proteger a população e os biomas. Por conta disso, os organizadores da Conferência entendem que se fazia necessária a realização deste evento, que reuniu pesquisadores das ciências atmosféricas e da terra em nível continental, que compartilharam, ao longo dos quatro dias, conhecimento contemporâneo e os principais avanços da ciência meteorológica.

A Conferência foi concebida por representantes de todas as universidades brasileiras que oferecem curso de meteorologia e órgãos de pesquisa e operação ligados à meteorologia. Ao todo, foram reunidos 1.103 participantes (44% mulheres e 56% homens), incluindo 150 palestrantes de catorze países. Aos alunos, foi oferecido alojamento e alimentação no restaurante universitário. Foi reunida a comunidade científica de diversos países da América Latina em torno de assuntos atuais e de grande relevância para a sociedade e apresentados 667 trabalhos, além de diversas mesas redondas e palestras de pesquisadores de destaque de todo o mundo.

Eventos extremos no Brasil

Nas últimas décadas, o Brasil vem convivendo com eventos extremos em diversas regiões, como as fortes chuvas ocorridas em Teresópolis, em 2011; no Rio de Janeiro, em 2019; em Petrópolis e São Sebastião, em 2022; no Litoral Norte de São Paulo, em 2023; e, mais recentemente, com quase 95% das cidades no Rio Grande do Sul afetadas, em 2024.

Além disso, observou-se eventos de seca no Brasil, como a grande estiagem em São Paulo em 2014 – que comprometeu o abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo e de diversas regiões do estado – assim como no Pantanal, em 2021; e no Amazonas, nestes últimos dois anos. “São alguns exemplos de eventos que precisam ser mais bem entendidos e, nada melhor que reunir a comunidade científica da área de meteorologia, para compartilhar experiências, unir esforços e integrar informações”, destaca Edmilson Dias de Freitas, Professor e Pesquisador do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), que abrigou o evento.

Integração de conhecimento

A comissão organizadora da Conferência, composta por todos os coordenadores dos programas de ensino superior em ciências atmosféricas do Brasil (nos seus vários níveis: graduação, mestrado e doutorado), além de coordenadores de curso técnico de meteorologia, observam que o conhecimento referente a esta área, resumido nos Relatórios do IPCC AR6, publicados em 2021 e 2022, apresenta lacunas de conhecimento e, portanto, se mostra imprescindível melhorar e atualizar o conhecimento sobre variabilidade e mudanças climáticas e os seus impactos no Brasil e na América Latina. “Essas lacunas precisam ser preenchidas com novos estudos. São muitos os temas ambientais e sociais que precisam estar no centro das discussões”, afirma Freitas.

A demanda por integração de sistemas de monitoramento de desastres tem crescido à medida que os impactos resultantes de fenômenos atmosféricos, como ondas de calor, frio, chuvas intensas que deflagram inundações, enxurradas e deslizamentos de terra, assim como secas e incêndios têm afetado o mundo, matando milhões de pessoas. A proposta discutida na Conferência é que haja uma maior integração entre o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC-INPE), Centro de Hidrografia da Marinha (CHM), e Centro Integrado de Meteorologia Aeronáutica (CIMAER), assim como dos serviços de alerta da Defesa Civil e dos sistemas de alerta hidrológicos, para ações mais céleres e efetivas. “O cenário perfeito seria termos o INMET atuando como os grandes centros mundiais, como o Centro Britânico (UK MetOffice) ou o Centro Norte-Americano (National Weather Service – NWS). A proposta, tendo em vista que os recursos são escassos, é que haja a integração entre esses órgãos, de forma que não se sobreponham esforços, mas sim se potencializem”, reforça Freitas.

O professor Edmilson Freitas também observa que, tão importante quanto a integração dos sistemas de alerta de emergência, é a adoção de medidas como o não desmatamento, não habitar encostas e áreas de mananciais (com oferta de um efetivo plano de habitação), evitar a queima de combustíveis fósseis e adotar fontes de energia menos nocivas, como a eólica (pela força dos ventos), fotovoltaica (por radiação solar) e hidrelétrica (pela força das águas), levando em conta os prós e contras destas fontes de energia, em cada situação, e estudando formas de reduzir seus possíveis impactos. “Além disso, as leis estão aí para serem cumpridas. Não podemos admitir o desmatamento e garimpo ilegal”, conclui.

Sobre o IAG/USP

O Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo é um dos principais polos de pesquisa do Brasil nas áreas de Ciências Exatas e da Terra. A missão é contribuir para o desenvolvimento do país, promovendo o ensino, a pesquisa e a difusão de conhecimentos sobre as ciências da Terra e do Universo e aspirando reconhecimento e liderança pela qualidade dos profissionais formados e pelo impacto da atuação científica e acadêmica. Na graduação, o IAG recebe em seus três cursos 80 novos alunos todos os anos. Já são mais de 700 profissionais formados pelo IAG, entre geofísicos, meteorologistas e astrônomos. Os quatro programas de pós-graduação do IAG já formaram mais de 870 mestres e 450 doutores desde a década de 1970. O corpo docente também tem posição de destaque em grandes colaborações científicas nacionais e internacionais.

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