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COP30 evidencia tensões, resistências e vias de avanço para a próxima fase da diplomacia climática

Belém, Novembro de 2025 – O contexto geopolítico que antecedeu a COP30 apontava para um resultado frágil em financiamento climático e dificuldades na transição energética. A ação coordenada de EUA, Arábia Saudita e Rússia para atrasar o acordo de descarbonização da navegação internacional em outubro indicava que avançar numa linguagem robusta sobre combustíveis fósseis seria difícil em Belém. Da mesma maneira, os europeus mantiveram um bloqueio em financiamento, tema central para os países em desenvolvimento, em particular o financiamento da Adaptação.

Belém acabou, de alguma forma, tensionando e alterando o funcionamento habitual da COP. Esta conferência introduziu ajustes e experimentos procedimentais que refletem a nova realidade de um mundo multipolar. Mudanças que indicam que o processo está sendo pressionado a se adaptar.

Na plenária de encerramento da COP30, o presidente da conferência aprovou o texto do Mutirão apesar de objeções levantadas por vários países, especialmente sobre os indicadores da Meta Global de Adaptação (GGA) e sobre falhas de processo e transparência. A intervenção mais contundente veio da Colômbia, que protestou formalmente contra o Procedimento do Programa de Trabalho de Mitigação e criticou o fato de sua solicitação ter sido ignorada antes da batida do martelo.

Outros países também expressaram frustração. Países-ilha (AILAC), União Europeia UE, Serra Leoa e Panamá criticaram o texto da GGA por retrocessos, falta de inclusão, indicadores pouco funcionais e por desconsiderar o trabalho técnico acumulado. Delegações destacaram que, sem financiamento adequado, a adaptação não sai do papel e que o processo prometido como transparente acabou marcado por decisões aceleradas e pela exclusão de contribuições essenciais das partes mais vulneráveis.

Mapas do Caminho

Grupos de países dispostos a cooperar em interesses específicos também viram oportunidades reais de progresso em Belém. É o caso das coalizões de países apoiando os mapas do caminho para o fim dos combustíveis fósseis e o desmatamento a partir de um forte chamado político do Brasil, por meio do presidente Lula e da ministra Marina Silva.

Com isso, o esforço desta COP para implementar a decisão de Dubai, de 2023, para afastamento dos combustíveis fósseis avançou parcialmente. Na plenária final, Correa do Lago afirmou que um grupo de trabalho liderado “pela ciência” será criado para orientar os roadmaps; e uma Cúpula específica para o fim dos fósseis será organizada em abril de 2026, na Colômbia.
 

O futuro da economia global depende do sucesso dessas iniciativas. A economia global pode encolher até um terço até 2100 se o aquecimento chegar a 3°C, em comparação com um cenário abaixo de 2°C. E com 3°C de aquecimento, quase 1 bilhão de pessoas adicionais ficariam expostas a calor e umidade extremos, em níveis potencialmente fatais. Por outro lado, uma transição rápida que limite o aquecimento a 1,5°C economizaria US$ 8 trilhões em custos globais de energia, comparada a uma transição lenta que levaria a cerca de 3°C.

Ao G20, realizado na África do Sul enquanto a COP30 é encerrada em Belém, o presidente Lula afirmou que um novo modelo econômico deve emergir do grupo de maiores economias. “Este Grupo é um ator-chave para desenvolver um mapa do caminho para mover o mundo para longe dos combustíveis fósseis. A COP30 mostrou que o mundo precisa enfrentar esse debate. A semente dessa proposta foi plantada e dará frutos mais cedo ou mais tarde.”

Destaques dos principais textos

Mitigação

Os textos da negociação não abordam combustíveis fósseis de forma explícita, nem o roadmap para eliminá-los. O mapa do caminho para zerar o desmatamento também foi omitido, mas a linguagem adotada reforça o compromisso para reverter o desmatamento até 2030.

Mas a negociação de transição justa criou um “acelerador”, mecanismo a ser entregue pela próxima COP31 e atrelado ao Consenso dos Emirados Árabes, que determinou o afastamento das fontes fósseis.

Os textos também apelam para a implementação completa das metas climáticas (NDCs) e que elas devem ser melhoradas para manter o aquecimento abaixo de 1.5C , meta de Paris, e minimizar qualquer ultrapassagem.
 

“Celebramos o estabelecimento do Mecanismo de Transições Justas como um marco histórico em nossa jornada coletiva no âmbito da Convenção e do Acordo de Paris. […] Instamos que esse mecanismo seja rapidamente operacionalizado na próxima Conferência das Partes, para que sua visão seja traduzida em apoio tangível para aqueles que mais precisam”, afirmam G77+China em declaração

Ricardo Baitelo, gerente do programa de Energia Elétrica do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), Brasil, disse:

“A COP30 viu o crescimento de um mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis, tanto pela presidência da conferência quanto pela sociedade civil mobilizada nas ruas e na conferência. Ainda que não tenha conseguido vencer o consenso e entrar no texto final do Mutirão, o tema foi anunciado e ganha tração com a inédita primeira conferência para o phase out de combustíveis fósseis a ser realizada na Colômbia em abril. Vale acompanhar como a iniciativa será conduzida no âmbito doméstico com as contradições do governo brasileiro em defender o aumento da produção de combustíveis fósseis e com todos os desafios técnico-econômicos e socioambientais da transição energética”
 Adaptação

Países em desenvolvimento pressionaram por uma meta ambiciosa de financiamento para adaptação — e o resultado, com US$ 135 milhões para Fundo de Adaptação – ficou aquém do que precisam, sobretudo diante do agravamento dos impactos climáticos. Ainda assim, o desfecho envia um recado claro: a UE e outros países ricos terão de ampliar seus aportes para adaptação, começando já. Os Indicadores de Globais de Adaptação (GGA) eram um tema de negociação prioritário para esta COP.

Thaynah Gutierrez, de Geledés – Instituto da Mulher Negra, disse (thaynah@geledes.org.br): 

“Geledés reconhece que ainda há muito trabalho para tornar os indicadores factíveis

de uma perspectiva global que ao mesmo tempo endereça necessidades locais. Mas

agora temos as estruturas necessárias para isso e o começo do indicativo de financiamento

prioritário para adaptação no texto do Mutirão. Esse indicativo reconhece a necessidade de triplicar o financiamento para a adaptação, ainda que sem definir a qualidade do acesso e o endereçamento para esse financiamento. Com o fortalecimento da agenda de Planos

Nacionais de Adaptação (NAPS) poderemos construir a ambição necessária que não pode

esperar dois anos para começar. Precisa ser agora e com o compromisso legítimo dos

países para reparar desigualdades enquanto as políticas de adaptação avançam.”
 

“[…] expressamos pesar por não termos obtido resultados bem-sucedidos no item de agenda relacionado ao Fundo de Adaptação, que é uma prioridade para os países em desenvolvimento. O funcionamento eficaz do Fundo de Adaptação continua sendo uma prioridade máxima para nós, e estamos preocupados por não termos alcançado uma decisão sobre este item. O G77 e a China destacam a importância da adaptação, especialmente a necessidade de triplicar o financiamento para adaptação. Estamos satisfeitos em ver essa questão abordada nos resultados da COP30”, afirma a declaração de G77+China.

Financiamento

Depois do resultado frustrante na COP29, Belém estabelece um Trabalho Ministerial sobre a implementação da meta financeira de Baku de US$300 bilhões, apoiada pelo relatório Baku-Belém sobre como escalar esses recursos para pelo menos US$ 1.3 trilhões
 

Houve avanços ainda na interface entre comércio e clima com o lançamento do Fórum Integrado sobre Mudança do Clima e Comércio, criando um espaço permanente de coordenação entre autoridades das duas áreas. Além disso, Brasil, UE, China, Reino Unido e outros formaram uma nova Coalizão de Mercado Global de Carbono para alinhar regras, métricas e padrões de integridade para mercados de carbono.

Madhura Joshi, líder de Diplomacia de Energia Limpa para Ásia, E3G, disse:

“A COP30 foi chamada de COP da verdade — e entregou essa verdade ao possibilitar transições reais, algo extraordinariamente difícil. O resultado final no pacote do Mutirão fica aquém do necessário, mas deixa pontos importantes sobre os quais será possível avançar. Há progresso incremental em adaptação, com indicadores e financiamento acordados, e em mitigação, por meio do acelerador global de implementação. Importante também é que esta COP trouxe comércio e desenvolvimento para o centro da discussão, reconhecendo o papel das dinâmicas de mercado global na forma como os países descarbonizam e crescem.”

Afrodescendentes

A COP30 marcou um avanço histórico ao incluir, pela primeira vez nos textos centrais da UNFCCC — como Transição Justa, Plano de Ação de Gênero, Objetivos Globais de Adaptação e o documento político da presidência, o Mutirão — menções explícitas a populações afrodescendentes. (leia nota completa de Geledés – Instituto da Mulher Negra, aqui).

Construída por uma articulação liderada por Geledés e organizações negras com apoio do Estado brasileiro, essa conquista reconhece o papel das populações afrodescendentes na linha de frente dos impactos climáticos e nas soluções de resiliência, fortalece sua participação e garante que raça, gênero e território sejam considerados na formulação de políticas e indicadores. A Inclusão representa um marco político que orientará financiamento, implementação e governança com perspectiva de equidade.

Movimento Indígena

Com participação recorde de 900 indígenas na Blue Zone e mais de 3 mil envolvidos nas atividades em Belém, os povos indígenas foram explicitamente reconhecidos no texto de mitigação, que destaca seu papel essencial na gestão sustentável das florestas, a necessidade de proteger seus direitos territoriais e o valor de seus conhecimentos tradicionais como parte das políticas de mitigação de longo prazo. Doadores anunciaram US$ 1,8 bilhão em apoio direto e indireto a povos indígenas e comunidades locais.

Domesticamente, a COP30 influenciou avanços no reconhecimento territorial no Brasil, com 10 Terras Indígenas declaradas durante o evento; e no exterior, ao menos 15 governos já se somam ao Compromisso Intergovernamental de Posse da Terra que fortalece direitos sobre 160 milhões de hectares — área equivalente à Mongólia.

Ação

Agenda de Ação, que é um elemento paralelo às negociações formais, também avançou em novos compromissos, incluindo:

→ Pelo menos US$ 9,5 bilhões para florestas

→ US$ 1,8 bilhão para apoiar reivindicações territoriais de povos indígenas

→ Pelo menos US$ 590 milhões para esforços de redução de metano

→ US$ 82 bilhões por ano para investimentos em redes elétricas e armazenamento

→ US$ 300 milhões para sistemas de saúde resilientes ao clima

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Notas para o Editor:

Confira os textos da COP30:

  • Decisão Mutirão link
  • Programa de trabalho sobre ambição e implementação de mitigação de Sharm el-Sheikh: link 
  • Questões relacionadas ao balanço global link.
  • Assuntos relacionados ao desenvolvimento e à transferência de tecnologia link
  • Mecanismo Internacional de Varsóvia para Perdas e Danos associados a Impactos da Mudança do Clima link
  • Comitê de financiamento – link 
  • Gênero link 
  • Relatório WIM link
  • Fundo verde para o clima link
  • Artigo 2.1: link
  • Fundo de Perdas e Danos link
  • Fundo de Adaptação link 
  • Datas e locais COP31/32 link
  • Fundo Global para o Meio Ambiente link
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