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Athanásio de Moura Seixas: Um desbravador na região da Amazônia

Wandell Seixas

Imagem: Athanásio recebe líderes políticos em Araguatins, entre eles Iris Rezende e Francisco Japiassú.

Athanásio de Moura Seixas tem uma história e tanto. Daria filme apresentando um desbravador, um homem destemido e íntegro por natureza. Esse filho de São João do Araguaia (PA), na confluência do Tocantins/Araguaia, culminou seus estudos em Uberaba (MG). Tendia a seguir a carreira sacerdotal se não encontrasse Delta Duarte, descendente de tradicional família em São Vicente do Araguaia, hoje Araguatins, no Bico do Papagaio (TO).

Num determinado momento, nos idos de 40 optou por uma aventura difícil de dimensionar. Inteirado do garimpo de diamantes de Rio Branco, partiu de barco para àquele território nos confins da Amazônia. Claro, não havia outro meio de transporte. Então, enfrentou durante meses os rios Araguaia, Tocantins, Amazonas, entre outros, até chegar ao seu destino. E, veja, bem. Nesse périplo, levou as cunhadas Tomazia e os três filhos e Diva Duarte. Em Manaus, Diva conheceu o jovem Álvaro, com quem casou e na capital amazonense ficou.

Athanásio em Boa Vista logo se firmou e interessado na compra e venda dos diamantes, enfrentou rios e estradas longas de chão para chegar ao garimpo de diamantes montado numa burra. Localizada no município do Amajari, a serra de Tepequém foi um dos principais garimpos de diamantes e ouro da América do Sul. A garimpagem na região começou em 1937. 

Após alguns anos, Athanásio decidiu voltar para Araguatins de uma vez por todas. Ocorreu um assassinato de um amigo, também do ramo, motivado por roubo das pedras preciosas. Esse quadro o impressionou profundamente. O receio de que ocorresse também com ele, preferiu partir. A insegurança nesses locais distantes e ermos dá medo. Do Rio Branco, hoje Roraima, trouxe o índio Bernardo, da tribo Macuxi, que adotou igual a um filho e o ensinou a pilotar voadeira, barco de corrida veloz.

Em Araguatins montou uma casa de comércio e negócios esporádicos de diamantes. Envolveu-se na política partidária e candidatou-se a prefeito. Nos idos de 50/60, na Prefeitura, desenvolveu amplo e inusitado trabalho. Construiu o primeiro grupo escolar, a sede municipal, aeroporto, cais do porto, interligou o município com outras cidades através de estradas. Instalou luz elétrica na cidade. Trouxe um caminhão de Belém (PA), uma peripécia.

 Uma aventura o transporte do veículo. Para transpor as cachoeiras, intransitáveis para um caminhão na época, houve necessidade de construção rudimentar de estradas às margens do Tocantins. Uma situação de risco comandada por João Seixas, seu irmão motorista e mecânico. O caminhão pioneiro foi recebido com festas pelo povo araguatinense no porto à margem do Araguaia. E foi de uma serventia sem tamanho na condução de areia, cimento, tijolos, madeira, entre outras cargas, antes transpostas em lombo de burro.

Tornou-se um líder político vinculado ao PSD, contribuindo para a eleição de deputados estaduais e federais. Como Francisco Japiassú e José de Souza Porto. Era um admirador do então governador Juca Ludovico. Mas, tinha o maior respeito pelos adversários. Em Conceição do Araguaia (PA) houve quem o convidasse a candidatar à Prefeitura. Preferiu manter-se em Araguatins.

Fez a festa do centenário da cidade, atraindo Iris Rezende. O ex-prefeito de Goiânia e ex-governador do Estado aproveitou o Araguaia para tomar banho à beira da praia. Athanásio gostava de tomar uísque com água de coco, que colhia do próprio quintal.  Enfim, uma pessoa que soube viver.

Mas, Athanásio teve um final de vida trágico. Acometido de um câncer, internou-se no Araújo Jorge, em Goiânia, prosseguiu o tratamento na casa do filho e da nora. Mas, apesar da luta pessoal e familiar, sobretudo dos esforços médicos, a doença tirou a vida daquele que foi um desbravador e exemplo de vida. Na Prefeitura, os recursos eram poucos e as verbas oriundas do Estado as vezes demorava a entrar, para o pagamento do pessoal não atrasar, retirava do seu parco recurso.

Pobre, mas querendo ser enterrado em Araguatins, ao lado de quem o amou em vida, seu desejo foi cumprido. O então governo do Estado cedeu um avião para levar seu corpo. Uma multidão acompanhou o féretro até o cemitério, numa demonstração de reconhecimento por tudo que ele fez pela cidade e pela vida das pessoas humildes.

Obs: O presente artigo foi decorrente do pedido do meu neto Luigi Lombardo, estudante da Universidade de Pompeu Fabra, Espanha.  Ele não conheceu o bisavô e queria conhecer a sua história.

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