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Brasil tem uma pecuária competitiva no mundo

Wandell Seixas

Removendo a atual preocupação dos pecuaristas brasileiros quanto às medidas restritivas impostas pelo governo americano, Thiago Bernardino de Carvalho, economista, doutor em Administração e pesquisador do Cepea/ESALQ/USP, foi o palestrante de abertura do O GlobalSynch Group, grupo de estudos anual promovido pela GlobalGen, hoje pela manhã no K Hotel, em Goiânia. O encontro, que reúne dezenas de produtores, técnicos, entre outros profissionais, prossegue até amanhã, 9, contando com uma série de palestras técnicas.

Na sua visão, o Brasil está cada vez mais competitivo na produção, sobretudo quanto à carne bovina, soja e milho, o etanol, o que deixa os Estados Unidos preocupados com a concorrência. Os brasileiros estão abrindo mercados importantes, exemplo da China, Japão, México, entre outros. Por isso, a reação do governo Trump. “Outros Trump poderão surgir. Este não será o primeiro”, brincou, encontrando ressonância do auditório.

O conferencista traçou o cenário do momento político, discorrendo sobre as taxas de juros mundiais, o clima que impacta o mercado, dependência brasileira, cambio e o mercado doméstico. Traçou também o quadro da venda de sêmen de corte x preços, raças comercializadas, sobressaindo o nelore e o angus. Apontou 50.984.147 fêmeas em monta natural, 1.699.471 touros para cobrir. Pelos dados do Cepea, o rebanho  bovino é composto de 203,81 milhões de cabeças. A produção deve crescer 2,73% e a exportação 11,34%. Mantendo o consumo, a produção deveria crescer 8,61%.

DEPENDÊNCIA DO FERTILIZANTE

A dependência brasileira de fertilizantes sintéticos importados é um problema. O País importa 85% dos fertilizantes que utiliza, com a Rússia respondendo por 23% desse total e o Irã por 17% das importações de uréia. A guerra na Ucrânia em 2022 já havia exposto essa fragilidade: os preços do cloreto de potássio  dispararam de US$ 300 para US$ 1.200 por tonelada, pressionando os custos de produção em plena safra recorde. Agora, em junho de 2025, o conflito Israel-Irã volta a expor o País ao risco de desabastecimento e ao aumento expressivo nos custos de produção.

A paralisação de fábricas iranianas de uréia, que produzem nove milhões de toneladas/ano e a interrupção do fornecimento de gás israelense ao Egito reduziram 20% da oferta global de nitrogenados, elevando os preços da uréia de US$ 398 para US$ 435/tonelada em quatro dias (+9,3%).

As fazendas brasileiras, seja na produção de bezerros, seja na engorda dos animais, estão na lista das mais competitivas do mundo, com os menores custos de produção.

            Nesse sentido, o País reforça seu importante papel de fornecedor mundial de carne, ajudando a garantir a segurança alimentar. De modo geral, verifica-se que a atividade pecuária nacional vem evoluindo em quatro pilares da produção: genética, pastagem, sanidade e nutrição. No entanto, fica evidente, também, que o Brasil precisa melhorar alguns indicadores zootécnicos, o que resultaria em aumento da produtividade e em conseqüente redução ainda maior dos custos.

RELATÓRIO AGRI BENCHMARK BEEF

 O relatório do Agri Benchmark Beef, que traz os resultados de 2019, mostra que sete das 10 fazendas com os menores custos na produção de cria estão na América do Sul. Estas na Argentina, Brasil, Colômbia e Uruguai. E dentre todos os países participantes, o menor custo é verificado em uma fazenda do Cazaquistão.  

            Considerando-se apenas as propriedades dedicadas à cria da América do Sul, a que registra o menor custo é a da Argentina, com US$ 80,95/100 kg de peso vivo (PV). No Brasil, a propriedade mais competitiva produz um bezerro ao custo de US$ 98,30 – o País participa com dados de seis fazendas típicas de importantes regiões pecuárias, com os custos do sistema de cria variando entre US$ 98,30 e US$ 216/100 kg de PV. Estes menores valores estão atrelados aos custos mais baixos na produção de alimentos, baseado na pastagem – característica brasileira – com a disponibilidade da terra.

 Já na outra ponta, das 10 fazendas típicas com os maiores custos na produção de bezerro, nove são européias, variando entre US$ 537 e US$ 2.120/100 kg de PV. Os maiores custos são verificados em fazendas típicas da Suíça, Áustria, República Checa e Alemanha. Uma fazenda da Tunísia também está entre as 10 com maiores custos, calculado em US$ 611,39.

 Para a engorda, o cenário não é diferente, com custos mais baixos em países sul-americanos e elevados nos europeus. Os gastos variam entre US$ 141,47 na Argentina e US$ 3.182 por 100 kg de PV na Suíça.

FAZENDAS TÍPICAS

            Entre as 10 fazendas típicas com os menores custos de produção, oito estão na América do Sul (Argentina, Brasil, Colômbia e Paraguai) e duas da África (Namíbia e África do Sul), com os valores variando entre US$ 141,47 e US$ 257,83 por 100 kg de PV. O Brasil aparece com duas fazendas típicas entre as 10 de menores custos, variando de US$ 211,08 a US$ 234,48/100 kg de PV.

            Já para as fazendas de maiores custos, 10 delas apresentam valores acima de US$ 800/100 kg de PV, variando de US$ 841 na República Tcheca a US$ 3.182/100 kg de PV na Suíça. Além do custo da terra, o encarecimento se deve aos gastos com silagem. Uma fazenda do Marrocos e outra da Austrália completam os países com os mais elevados custos.

            Na comparação dos dados de engorda, o Brasil participa com dados de oito fazendas típicas, com os custos desse sistema variando entre US$ 211 e US$ 711,5/100 kg de PV. Essa ampla diferença se deve aos distintos fatores de produção empregados em sistemas de engorda brasileiros e à região pecuária.

 O que chama a atenção nas fazendas brasileiras de engorda é que há uma com o sistema a pasto (US$ 211,08/100 kg PV) e outra com terminação em confinamento (US$ 234,48/100 kg PV) com pouca diferença nos custos, o que evidencia a eficiência na produção de confinamentos brasileiros.

 Dentre todas as propriedades mundiais com engorda em confinamento representadas no Agri Benchmark, apenas três (Argentina, Colômbia e Namíbia) apresentam custos inferiores aos do Brasil. Já para a engorda em pastagem, somente duas fazendas – uma na Argentina e outra na Colômbia – são mais competitivas que a brasileira. Vale lembrar que o rebanho bovino na Argentina é um pouco superior a 50 milhões de cabeças, e na Colômbia, ao redor de 25 milhões de cabeças, segundo dados do USDA. Já o rebanho brasileiro é estimado em 214,7 milhões de cabeças pelo IBGE.

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