Censo identifica mais de 200 etnias indígenas em Goiás. Muitas tribos trocaram as matas pelo meio urbano
De acordo com o Censo Demográfico 2022, foram registradas 211 etnias indígenas em Goiás, 68 a mais que no levantamento anterior, em 2010. Com isso, o Estado é o quinto com maior diversidade étnica indígena, atrás apenas de São Paulo (271), Amazonas (259), Bahia (233) e Pará (222). Considerando – se os municípios goianos, o maior quantitativo foi observado em Goiânia (132), seguido por Aparecida de Goiânia (72) e Valparaíso (54). Hoje, essas tribos vivem mais em situação urbana, deixando as matas, sobretudo as orlas ribeirinhas, onde viviam da caça e da pesca.
Entende-se por “etnia” uma comunidade humana definida por afinidades lingüísticas, culturais e/ou sociais. No questionário do Censo Demográfico 2022, ao ser perguntada sobre sua etnia, o indígena podia informar até duas respostas. Em Goiás, dentre as 19,2 mil pessoas indígenas de dois anos ou mais de idade, 6,2 mil declararam uma etnia (32,07%) e 320 declararam duas etnias (1,67%). As demais respostas foram categorizadas em não-determinada (3,09%), mal definida (6,32%), não sabe (27,87%) ou não declarou (29,00%).
Karajá predomina
Em Goiás, a etnia Karajá foi declarada por 1.260 pessoas indígenas, posicionando-se como aquela com maior quantitativo populacional no Estado. Em seguida, aparecem a Xavante (1.022 pessoas), a Tapuia (626 pessoas) e a Guarani (579 pessoas), que, no Brasil, foi a que registrou mais representantes.
Xavante vive em situação urbana
Em Goiás, 96,97% das pessoas pertencentes à etnia Xavante – a segunda mais populosa do Estado – viviam fora das terras indígenas, em domicílios urbanos. O resultado é expressivo, mas não se restringe ao grupo Xavante: com exceção do Kantaruré e do Yanomami/Yanomán, todos os povos pesquisados apresentaram a maioria de seus integrantes residindo em situação urbana.
Para a etnia Karajá, mais de mil pessoas declararam viver em local urbano (85,48%); para a Guarani, foram mais de 500, quase a totalidade de sua população em Goiás (95,51%). Dentre os vinte grupos indígenas com mais representantes no Estado, apenas seis tiveram pelo menos um indivíduo que residia em terras indígenas: Tapuia (165), Karajá (141), Javaé (30), Avá-Canoeiro (8), Xavante (4) e Bororo (1). Foram cinco as terras indígenas pesquisadas em Goiás: Avá-Canoeiro, Carretão I, Carretão II, Karajá de Aruanã I e Karajá de Aruanã III.
Guarani: 50 anos ou mais
Considerando-se as cinco etnias mais populosas em Goiás e a distribuição de seus indivíduos por faixa etária, a Guarani se destacou como aquela com maior percentual de pessoas com 50 anos ou mais de idade (45,08%). Nesse mesmo critério, a Tapuia aparece em segundo lugar, com 42,33% de seus representantes integrando essa faixa. Quando são analisadas apenas as pessoas com 60 anos ou mais, porém, o povo Tapuia (26,04%) aparece ligeiramente à frente do Guarani (25,56%).
Por outro lado, os grupos indígenas Xavante e Tenetehára chamaram a atenção como aqueles com maior proporção de indivíduos com menos de 30 anos. Quase metade de suas populações – 48,53% para o Xavante e 46,59% para o Tenetehára – pode ser enquadrada nessa faixa etária.
Em relação à etnia Karajá, por sua vez, observa-se uma divisão quase igualitária entre as faixas até 39 anos de idade (51,51%) e de 40 anos ou mais (48,49%).
Além do estudo por grupo etário, o Censo Demográfico 2022 levantou a taxa de alfabetização para as pessoas de 15 anos ou mais de idade em cada uma das etnias indígenas. Considerando-se as cinco mais populosas de Goiás, a Guarani foi a que apresentou maior índice (93,00%), acompanhada pelas seguintes: Tenetehára (91,96%), Xavante (91,85%), Tapuia (90,47%) e Karajá (89,43%).
Língua indígena em seus domicílios
O Censo Demográfico 2022 também investigou as línguas indígenas utilizadas pelas pessoas indígenas para comunicação em seus próprios domicílios. Para aqueles que falavam mais de uma língua, foram captadas até três respostas no quesito. Em Goiás, dentre as 19,2 mil pessoas indígenas de dois anos ou mais de idade, 1,1 mil declararam uma língua indígena (5,55%), 30 declararam duas (0,16%) e apenas 10 declararam três (0,05%). Outras respostas foram categorizadas em não-determinada (0,14%), mal definida (0,21%) ou não sabe (0,19%).
O maior destaque, porém, foi a quantidade de indivíduos indígenas que não falam língua indígena no domicílio. No total, eles somam 18,0 mil, o que corresponde a 93,70% da população goiana pesquisada. No Brasil, eles também representaram uma parcela significativa da população indígena (70,81%), embora consideravelmente inferior à de Goiás. Além disso, a proporção nacional de pessoas indígenas que afirmaram falar pelo menos uma língua indígena no domicílio (29,03%) foi cinco vezes maior que a calculada no Estado.
Língua indígena mais falada
Em Goiás, foram registradas 80 línguas indígenas declaradas pelas pessoas indígenas de cinco anos ou mais de idade, 10 a mais que no levantamento anterior, em 2010. Com isso, o estado é o oitavo com maior diversidade no quesito. No Brasil, foram contabilizadas 295 línguas indígenas, sendo o Amazonas (165), São Paulo (130) e Pará (126) as unidades da federação com maior quantitativo delas. Considerando-se os municípios goianos, o maior número foi observado em Goiânia (35), seguido por Aparecida de Goiânia (18) e Valparaíso (13).
Além das línguas indígenas, foram investigados os troncos e famílias lingüísticas. De todas as línguas indígenas faladas por, pelo menos, uma pessoa indígena, bem como os troncos e famílias lingüísticas em que elas se inserem. Em Goiás, a língua Xavante, declarada por 438 pessoas indígenas, foi a mais falada. Ela pertence à família lingüística Jê, utilizada por 513 indígenas, do tronco Macro-Jê, com 735 falantes.
A família Tupi-Guarani foi aquela com mais declarações para o Brasil (128,5 mil) e a segunda mais relatada em Goiás (197). Pertencente ao tronco Tupi, ela engloba 37 línguas, das quais a Guajajara (49) foi a que assinalou mais representantes no estado e a Guarani Kaiowá (38,7 mil) foi a predominante no País.