Furtos nos supermercados tem ações audaciosas e Goiás participa com 1,34% das perdas
“Engravatados” em Goiânia enchem o carrinho de picanha
Wandell Seixas
Os roubos e furtos nas redes de supermercados surpreendem pelo volume e pelas características. Segundo Pesquisa Abrappe de Perdas no Varejo Brasileiro, conduzido em 19 estados, os prejuízos ultrapassam 30 bilhões. Em Goiânia, os estabelecimentos ouvidos pelo portal Abrindo a Porteira pediram reservas quanto a nomes dos informantes e das respectivas unidades supermercadistas. Mas, deram informações impactantes como de furtos de picanhas por “engravatados”, ou seja, pessoas bem vestidas, portanto, de posses, conforme palavras do informante.
Goiás ocupa a 14ª posição no estudo da Abrappe sobre perdas no varejo brasileiro, com uma taxa de 1,34% de participação no total das perdas. O estudo, que abrange o período de 2023, analisa as perdas em supermercados devido a furtos, roubos e outros fatores. Em termos de furtos e roubos de veículos, Goiás se destaca como o Estado com a menor taxa do Brasil, conforme dados do Mapa da Segurança Pública de 2025. Isso se reflete em uma queda significativa nos casos de roubos de veículos, com uma redução de 25,27% em 2024 em comparação com o ano anterior.
O estudo da Abrappe também aponta que as perdas no varejo brasileiro aumentaram em relação a 2022, com um índice médio de 1,57% em 2023. A pesquisa detalha que as perdas podem ocorrer por diversos motivos, incluindo furtos internos e externos, erros operacionais e quebras. É importante ressaltar que Goiás tem demonstrado uma atuação positiva na redução de crimes, incluindo roubos a instituições financeiras, que permanecem zerados no Estado. O governo estadual tem investido em políticas públicas e ações de segurança para garantir a redução contínua dos índices de criminalidade.
No furto de carnes num supermercado de porte, situado em bairro nobre de Goiânia, o prejuízo atinge R$5 mil em um mês. Mas, não pára por aí. Em café, produto que nos últimos meses tem sofrido valorização, o rombo passou da casa dos R$20 mil mensais. Há ações individuais e também de quadrilha. Um carrinho cheio de desodorantes, cujo valor ascende a R$4 mil, foi flagrado pelo sistema de monitoramento. Noutra rede, as ocorrências de furtos se relacionaram a mochila, bebidas, chocolates, carnes bovina, suína e de frangos. Nem o bacalhau fica de fora.
A abordagem é um dos momentos mais difíceis e complexos, observa a gerência de um dos estabelecimentos. “É sempre desgastante”, observa. Para o período noturno, em regra as redes de supermercados mantém parcerias com a Polícia Militar. O objetivo é impedir assaltos. Conforme a pesquisa, os crimes costumam ocorrer entre terça e sexta feira, das 17h às 19h, dias e horários de maior movimento. Em uma rede de supermercados, ocorrem entre três e quatro furtos por dia, e o prejuízo passa dos R$ 10 mil. Segundo a Associação Brasileira de Prevenção de Perdas, os setores mais afetados são os atacarejos. Mais de 60% dos furtos são cometidos por clientes regulares.
Fatores socioeconômicos, crescimento da insegurança alimentar, mudanças nos padrões de consumo, desigualdade de renda ou apenas oportunismo e falta de segurança. Estes são alguns dos motivos que têm provocado o aumento de furtos em supermercados, lojas e no varejo em geral, conforme a última pesquisa da Abrappe.
De acordo com os cálculos da entidade, os furtos internos e externos – provocados por clientes, funcionários, fornecedores e promotores – representaram, somados, 31,7%, em média, das perdas no ano de 2023. Levando em consideração que, segundo o IBGE, o varejo brasileiro movimentou R$ 2,23 trilhões em 2023, a perda apenas da fatia projetada dos furtos (31,7%) dentro do bolo total, pode ser estimada em pouco mais de R$ 11 bilhões.
MONITORAMENTO
São sugeridos lacres de segurança em alguns produtos como o azeite de oliva, manutenção de bebidas caras em caixas ou entradas e saídas com detectores.
De acordo com a Abrappe, só foi possível chegar aos números se baseando em dados como monitoramento de imagens por vídeo de clientes e funcionários. Também serviram como evidências diversas embalagens violadas logo após o manuseio de empregados.
Dos 31,7% de perda, 9,8% dos furtos foram cometidos pelos próprios funcionários, conforme a pesquisa da Abrappe. A checagem é feita através de filmagens dos próprios estabelecimentos.
A pesquisa mostra que três segmentos se destacam negativamente:
O atacarejo, com ampliação de serviços, teve alta de 48,10% nas perdas totais e 48,82% nos furtos. O setor farmacêutico, impulsionado por furtos de medicamentos de alto valor como Ozempic e similares, teve aumento de 38,93% nas perdas totais e 29,02% nos furtos.
O setor supermercadista teve alta de 11,53% nas perdas totais, mas o furto é o grande vilão com 31,19%, principalmente por causa de processos ineficientes. Mesmo com a média de perdas no varejo tendo caído para 1,51% em 2024, isso ainda representa cerca de R$ 36,5 bilhões em prejuízos.
O varejo alimentar – que inclui hipermercados, supermercados, atacarejos, lojas de conveniência e vizinhança — acendeu um sinal de alerta: o índice médio de perdas saltou de 1,91% para 2,39% no último ano, ou seja, um crescimento de 25% de um ano para o outro. Segundo Carlos Eduardo Santos, presidente da Abrappe, a elevação dos furtos, fraudes em caixas registradoras e processos ineficientes estão entre os principais motivos para esse avanço.