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Goiás preserva os jumentos dos abates

Wandell Seixas

Em Goiás, os jumentos são preservados dos abates para exportação de peles à China, ao contrário de outros Estados, sobretudo do Nordeste. De acordo com o cruzamento de dados do MAPA, do IBGE e do sistema Agrostat, o extrativismo levou o Brasil a perder 94% de sua população de jumentos entre 1996 e 2025. Em termos práticos, de cada 100 animais existentes na década de 1990, apenas seis permanecem atualmente.

Segundo a SGPA, não existem em Goiás frigoríficos licenciados ou grandes operações de abate industrial de jumentos. A matança desses animais para a exportação de pele está concentrada na Bahia, Estado que abriga as plantas autorizadas pelo Ministério da Agricultura.

Em território goiano, o manejo com esses animais é focado na criação legalizada de jumentos da raça pêga para reprodução, sela e lida rural, em propriedades como a Fazenda Santa Cruz em Pilar, Fazenda Três Taças em Alvorada do Norte, Rancho Santa Cecília, em São Miguel do Araguaia, Fazenda Lage, em Rio Verde, Fazenda Beira Céu, em Porangatu.

Apesar de não ser um polo de abate, o tema envolve diretamente o Estado por questões de patrimônio ambiental e causa animal. A atividade de abate de jumentos no Brasil tem forte caráter extrativista e é considerada predatória, causando uma queda de 94% na população nacional desses animais.

Para especialistas que acompanham o tema, o reconhecimento oficial da inexistência de uma cadeia produtiva estruturada reforça os argumentos pela proibição definitiva do abate de jumentos no Brasil, sob o risco de extinção da espécie nos próximos anos. “O próprio MAPA admite que não existe criação organizada de jumentos no país. Isso desmonta o argumento de que há uma atividade pecuária sustentável relacionada aos jumentos”, afirma Patrícia Tatemoto, PhD em Ciências pela USP.  

O documento também reconhece que os animais destinados ao abate são, em sua maioria, “predominantemente de descarte”. Na prática, os jumentos abatidos no país são descritos como “animais de trabalho descartados ou abandonados ao fim de sua vida produtiva e sem valor comercial”. Nesse contexto, os abatedouros localizados na Bahia recolhem os animais para o abate sem informações adequadas de rastreabilidade e sem garantias mínimas de biossegurança, entre outros problemas apontados por especialistas.  

Outro ponto destacado diz respeito às fragilidades no controle da origem dos animais. Conforme o documento, a Guia de Trânsito Animal apresentada durante os transportes “na maioria das vezes não é a origem de todos os animais transportados”, podendo indicar apenas locais temporários de reunião de animais recolhidos em diferentes regiões

Segundo José Roberto Lima, veterinário e doutor em Saúde Pública com estágio na University of Florida, a prática consiste em reunir os animais em pontos provisórios antes de destiná-los ao abate, para formar lotes de transporte. “Muitas vezes, esses jumentos permanecem nesses locais em condições precárias, sem acesso adequado à água, alimentação ou cuidados veterinários”, afirma.

O MAPA também menciona a “inevitável correlação de baixa qualidade dos animais adquiridos”, justamente por se tratarem de animais descartados. Isso amplia o risco reputacional ao país, especialmente em um momento sensível das negociações do acordo Mercosul –União Europeia, no qual o Brasil já enfrenta embargo setorial e desqualificações sanitárias que poderão comprometer exportações para a União Europeia a partir de setembro. O texto ainda detalha normas relacionadas ao transporte, manejo, pré-abate, abate humanitário e procedimentos de fiscalização realizados pelos SIFs, mas não diz se os envolvidos nessa atividade cumprem essas obrigações.

Segundo Gislane Brandão, coordenadora da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos, a atividade se sustenta sobre a exploração de animais historicamente utilizados no trabalho rural e que hoje enfrentam riscos crescentes de abandono e maus-tratos. “Isso expõe não apenas a vulnerabilidade dos jumentos, mas também a ausência de sustentabilidade, a falta de políticas públicas voltadas aos cuidados com esses animais, o desrespeito à Constituição Federal, e o extrativismo do abate”, conclui.

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