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Lideranças classistas reagem à crise no setor agrícola

Wandell Seixas

Uma série de fatores está provocando uma crise no setor agrícola. É surpreendente porque a atividade que proporcionava a cada ano recorde de safra. A segurança alimentar era total. Agora, paira dúvida. Os sindicatos rurais de Porangatu, no norte de Goiás, e Montividiu, no Sudoeste, reagiram com manifestações públicas. Em Rio Verde, maior pólo do agro goiano, o presidente da Comigo, Antônio Chavaglia, uma das maiores cooperativas do País, chiou feio.

No Congresso Nacional, a bancada ruralista, representada pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), tem manifestado preocupação com uma crise no agronegócio, com foco especial na alta inadimplência e nas dificuldades enfrentadas pelos produtores nos anos de 2024 e 2025. A Federação da Agricultura (Faeg) está avaliando o momento agropecuário.

Na Assembléia Legislativa, o deputado Amauri Ribeiro reagiu com veemência, acusando da tribuna o atual governo federal. Observou que “o produtor está abandonado”. Alexandre Caixeta, produtor em Silvânia, atribuiu às dificuldades aos custos elevados e aos preços sem projeções. Mas, aponta também o tempo, taxas elevadas, cotação do dólar e os acordos mundiais. Diz ainda que o arrendamento “é outro complicador”.

Os sindicatos rurais goianos argumentam que “uma crise severa que se instala no campo”. Em comunicados oficiais, os sindicatos de Montividiu e de Porangatu manifestam “profunda preocupação” com a conjuntura enfrentada pelos produtores. A situação é descrita como uma “tempestade perfeita”: o clima não está colaborando, os custos de produção estão elevados, os preços das commodities estão baixos e o crédito está escasso.

Em Montividiu a situação climática é um dos pontos mais críticos. As previsões de climatologistas sobre chuvas normais no início da estação não se confirmaram, dando lugar a uma estiagem ou chuvas muito irregulares. Jonny Chaparini, presidente do Sindicato Rural, desabafa sobre a disparidade em relação ao ano anterior. “No ano passado, nós tínhamos em torno de 70% plantados. Este ano, não tem 25-30%”, observou. A informação é confirmada pela nota oficial da entidade. Segundo o presidente, muitos produtores estão com medo de perder o investimento e aguardam a regularização das chuvas para plantar. A nota alerta ainda para o risco de “perda ou de replantio”.

Chaparini critica também a dissonância entre a realidade do campo e as projeções de mercado. “Os órgãos governamentais falam que será uma super safra, que o clima é bom”, diz o dirigente classista. Essa pressão, que o sindicato classifica como “desanimadora”, joga os preços para baixo. O produtor se vê em um dilema: “Ele tem que produzir porque tem que produzir, senão não vou pagar minhas contas. Aí ele produz e não tem preço”, lamenta. No Norte, a situação é igualmente “desafiadora”.  A nota do Sindicato Rural de Porangatu, assinada pela presidente Ana Amélia Paulino, lista problemas que se somam irregularidade das chuvas.👉 

Principais preocupações

As principais preocupações da bancada ruralista e os motivos da crise incluem:

  • Inadimplência recorde: Em 2024, a inadimplência no setor atingiu o maior nível em anos, levando a um aumento expressivo de pedidos de recuperação judicial. A inadimplência é mais acentuada entre grandes produtores, mas afeta todo o setor.
  • Crédito restrito e juros altos: a queda nos investimentos e o aumento dos custos do Plano Safra. A restrição de crédito e as altas taxas de juros, agravadas por um cenário de instabilidade global, encarecem a produção e pressionam os produtores.
  • Quebras de safra: Eventos climáticos extremos e quebras de safra em 2024 contribuíram para a queda da renda dos produtores.
  • Falta de seguro rural: mais recursos para o seguro rural, como uma forma de proteger os produtores de eventos imprevisíveis, como a crise climática. A ausência de um plano de seguro robusto para a safra 2025/26 foi uma crítica específica levantada em 2025.
  • Disputa por recursos e isenções: contra propostas de mudanças na tributação de aplicações financeiras, como as Letras de Crédito do Agronegócio, que poderiam afetar os benefícios fiscais do setor.
  • Críticas ao governo: críticas ao governo federal, apontando desorganização no anúncio do Plano Safra 2024/2025 e expressando preocupação com a queda de investimentos. Houve também embates sobre a participação do agronegócio no Plano Clima, com a bancada discordando da responsabilização do setor. 
IBAJUD repudia ameaças de executivo do Banco do Brasil e defende o direito à recuperação judicial dos produtores  

O Ibajud – Instituto Brasileiro da Insolvência repudia veementemente as declarações do vice-presidente de riscos do Banco do Brasil, Felipe Prince, que afirmou que produtores rurais que ingressarem com pedido de recuperação judicial “não terão crédito hoje, amanhã nem nunca mais”.  

Essa posição é incompatível com o Estado Democrático de Direito e uma ameaça ao exercício de um direito previsto em lei. A recuperação judicial, assegurada pela Lei nº 11.101/2005, é instrumento legítimo de reorganização econômica, que visa preservar atividades, empregos e honrar compromissos, não sendo uma “armadilha”, como erroneamente sugerido pelo executivo do Banco do Brasil.  

Punir ou excluir produtores por recorrerem à Justiça, fundamentados em lei aprovada pelo Legislativo, viola os princípios constitucionais e de ordem econômica, aumenta a insegurança jurídica e compromete o equilíbrio do setor agropecuário. Nenhuma instituição financeira pode retaliar quem busca amparo legal, supervisionado pelo Judiciário.  

O IBAJUD espera que o Banco do Brasil reveja publicamente suas declarações e suas práticas, reafirmando o compromisso que se espera de um banco público: o de promover o desenvolvimento sustentável do país, respeitar a legalidade e contribuir para a estabilidade jurídica e econômica do setor produtivo brasileiro.  

Luiz Alexandre Cristaldo Breno Miranda Bruno Rezende      
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