Tendência

Mercosul-Egito zera últimas tarifas de acordo

Nove anos depois de entrar em vigor, livre comércio entre o país árabe e o bloco sul-americano chega à última etapa de redução de taxas de importação.

Marcos CarrieriPor Marcos Carrieri24/02/2026Atualizado em:24/02/20265 mins de leitura

Claudio Neves/Portos do Paraná

Embarque de grãos em porto do Paraná: fim de tarifas existentes pode ampliar ainda mais o comércio do Brasil com o Egito, que está inserido no acordo com o Mercosul

São Paulo – Nove anos após entrar em vigor, o acordo de livre comércio entre o Egito e o Mercosul eliminará, até setembro, as últimas tarifas de importação previstas na negociação. Deixarão de ser cobradas taxas da cesta “D”, que inclui produtos como plásticos, coco e derivados, e castanhas. O Mercosul é formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – Bolívia se tornou membro pleno em 2024.

O acordo de livre comércio com o Egito foi assinado em 2010 e passou a vigorar 1 de setembro de 2017. Ele previa um cronograma de desgravação (redução) tarifária dividido em cinco cestas: A, B, C, D e E. Os produtos da cesta A tiveram desgravação imediata. Os produtos da cesta B tiveram desgravação de 25% a cada doze meses até a totalidade de isenção de impostos em setembro de 2020. Os impostos dos produtos da cesta C foram reduzidos em 12,5% ao ano até 2024, enquanto as taxas previstas na cesta D são reduzidas em 10% ao ano até chegarem a 100% em setembro deste ano. A cesta E terá cronograma de desgravação a ser definido.

Estão na cesta A perus e cloreto de mercúrio, entre outros. Integram a cesta B, bagres e pirarucus, por exemplo. Já a cesta C é composta por itens como pasta de madeira e madeira laminada. São parte da cesta D polímeros, coco e derivados. A desgravação tarifária é detalhada. Por isso, produtos de madeira, por exemplo, podem estar distribuídos, em seus diferentes tipos, por todas as cestas. O mesmo ocorre com café e derivados e carnes de animais, entre tantos outros produtos.

Barral: Egito é porta de entrada para os produtos brasileiros na África
Barral: Egito é porta de entrada para os produtos brasileiros na África

Cada produto exportado por um país tem um número dentro da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM). Esse número pode ter de dois a oito dígitos, sendo que dois dígitos indicam o capítulo de um produto, e oito dígitos representam o detalhe específico do processamento daquele produto. Café, por exemplo, é capítulo 09. Café torrado e moído não descafeinado é o 0901.21.00. Já Café verde tem número 0901.11.10. A lista de cestas dos acordos comerciais, como é o caso do Mercosul-Egito, prevê cestas e desgravações e até exceções para cada produto e processamento.

Para o sócio da BMJ Consultores Associados, Welber Barral, a desgravação dos produtos da cesta D poderá resultar em ampliação das trocas comerciais entre Mercosul e Egito e entre o Brasil e o Egito. Ele avalia que, até o momento, o acordo foi benéfico para todos os países envolvidos.

“O Egito é um país que tem um mercado grande, é um mercado de porta [de entrada] para África, então é um mercado que interessa aos países do Mercosul e onde o Brasil tem um superávit muito grande, justamente pela exportação de alimentos. E o Brasil tem aumentado a importação, principalmente de adubos. Então, o acordo bilateral é relevante para o Mercosul, para o Brasil e para o Egito”, avalia Barral.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) organizados pela Inteligência de Mercado da Câmara de Comércio Árabe Brasileira mostram que as exportações do Brasil para o Egito subiram de US$ 1,7 bilhão em 2016, quando o acordo ainda não vigorava, para US$ 3,9 bilhões no ano passado. Já as importações do Brasil de produtos do Egito saltaram de US$ 94,4 milhões em 2016 para US$ 1,38 bilhão no passado.

Os principais produtos exportados ao Egito em 2025 foram milho, açúcar e carne desossada de bovino. Os principais produtos importados pelo bloco foram fertilizantes fosfatados e nitrogenados.

Oportunidades para Mercosul, Brasil e Egito

Barral cita, como exemplo, que o Brasil é um grande fornecedor de algumas categorias de plásticos. Embora também seja fornecedor de outras categorias do produto, o Egito é um grande consumidor de plástico. Por isso, a desgravação dos produtos plásticos da cesta D poderá criar oportunidades para os exportadores brasileiros. O mesmo ocorre para coco e castanhas procedentes do Brasil. “Os produtos beneficiados podem incrementar as trocas, porque tira tarifa e o produto brasileiro fica mais competitivo”, diz.

De acordo com levantamento da Inteligência de Mercado da Câmara Árabe, em 2025 o Brasil exportou US$ 37,06 milhões de produtos da cesta D ao Egito, em um aumento de 18,4% sobre 2021 e correspondente a 1% do total das exportações. Os principais produtos desta cesta exportados ao Egito foram castanha de caju, medicamentos que contém insulina, pastas químicas de madeira e tubos de outras ligas de aço. A Inteligência de Mercado identificou oportunidades de exportação para calçados com sola de borracha ou plástico, motores elétricos com potência igual ou inferior a 7,5 mil kw e melões frescos.

O mesmo levantamento mostra que no ano passado o Brasil importou US$ 195,04 milhões do Egito em produtos da cesta D, com aumento de 69,2% sobre 2021 e correspondentes a 14% do total importado do Egito. Os principais produtos comprados foram morangos congelados, fios-máquinas de ferro ou aço não ligado, outros objetos para serviços de mesa e cozinha e cordas e cabos de ferro ou aço não isolados.

As oportunidades a ser exploradas nas vendas do Egito ao Brasil, identificou a Inteligência de Mercado, estão em copolímeros de etileno, jogos de fios para velas de ignição, outras partes de aparelhos de interrupção de circuito elétricos, outras partes para tratores e veículos automóveis e outras partes para motores de explosão.

Entre os países árabes, o Mercosul mantém acordo de livre comércio também com a Palestina. A parceria dos Emirados Árabes Unidos com o bloco estava prevista para 2025, mas contina em negociação.

Botão Voltar ao topo