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Mogno a ser removido detém uma história ímpar

Wandell Seixas

Imagem: Quase sete décadas, o pé de mogno da Rua 20 está com os dias contados

Aproximando dos 70 anos de idade, o mogno frondoso plantado defronte a então Faculdade de Direito da Rua 20, Centro de Goiânia, terá um fim triste para muitas pessoas. A retirada da árvore de frente para a hoje Casa da Memória da Justiça Federal está prevista para esta semana, possivelmente entre os dias 8 e 9, após adiamentos devido a impasses entre a Comurg e a Equatorial por razões de segurança. Na realidade, a árvore é muito grande e que costuma abrigar um bando de aves ao anoitecer, segundo uma vizinha ao lamentar a ausência do grasnar e de seu canto.

A decisão partiu da Escola de Agronomia da UFG, que constatou que a árvore apresenta risco iminente de queda. O laudo apontou inclinação progressiva em direção à via pública, presença de galhos mortos, cavidades internas e densidade da madeira abaixo dos níveis considerados seguros. Os demais organismos vinculados optaram pela remoção imediata do pé de mogno.

Imagem: Boleslaw e família: disseminação do mogno

Por determinação da Diretoria do Foro, um segmento de um metro linear do tronco será destinado à Universidade Federal de Goiás (UFG), para a criação de monumento ou obra artística. Como medida compensatória, a Justiça Federal em Goiás anunciou a doação de 50 mudas da mesma espécie à Amma. Será realizado o plantio de um ipê-amarelo no local, por se tratar de espécie nativa do Cerrado.I

O mogno detém uma história pouco conhecida na atualidade. Em Araguatins, município situado no Bico do Papagaio, banhado pelos rios Araguaia e Tocantins, pertencia ao Estado de Goiás. No fim da década de 50, a Rio Impex, empresa de capital alemão, aportou na cidade. E começou a explorar a madeira, espécie nobre, exportando inclusive para a Europa. Por sua qualidade especial era utilizada em móveis sofisticados, inclusive em instrumentos musicais. A empresa se propôs a atender exigências da época, cultivando dez árvores por cada uma abatida. Mas, naqueles anos, passou a haver intensa polêmica, ênfase à classe estudantil universitária.

Como resultado, uma muda do pé de mogno foi enviada de Araguatins pelo polonês Boleslaw Daroszewski, ex-combatente da 2ª Guerra Mundial, com a patente de oficial da Marinha da Polônia, primo do papa São João Paulo II e hoje brasileiro naturalizado. Boleslaw enviava mudas e sementes para o Horto Florestal de Goiânia, propiciando o plantio em diferentes pontos urbanos. Quem conta esses detalhes é Jorge Fernandes, mais conhecido pela alcunha de Jorjão, antigo morador araguatinense e genro de Boleslaw.

Jorjão: difundindo o mogno

Segundo ele, a árvore da Faculdade de Direito da Rua 20, Centro, foi plantada no dia 13 de maio de 1957 por integrantes do Diretório Acadêmico. A liderança dessa manifestação coube ao então presidente do DA, João Neder. Era uma forma de protesto contra o que os estudantes consideravam “dizimação da floresta do mogno na região norte de Goiás”, hoje Estado do Tocantins. Jorjão observa que a “família que enviou a muda reivindica um pedaço do tronco da árvore”, que será removida.

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