População negra em Goiás aumenta em 65,5%, a discriminação cai, mas ainda existe
Os dados dos Censos Demográficos de 2010 e 2022 revelam que a população negra em Goiás cresceu a uma taxa de 65,5% entre 2010 e 2022, um ritmo significativamente superior ao crescimento da população branca no Estado (2,2%) e também acima da média nacional de crescimento da população preta (42,3%). Este aumento expressivo reflete não apenas a dinâmica demográfica e um processo contínuo de afirmação identitária, mas também uma mudança fundamental na composição social e racial goiana.
A estrutura etária da população também passou por transformações importantes no período, com um processo de envelhecimento acelerado para todos os grupos. O índice de envelhecimento, que mede a proporção de idosos (60 anos ou mais) para cada 100 jovens (até 14 anos), revela que a população preta envelhece em um ritmo acentuado. Em Goiás, o índice de envelhecimento da população preta saltou de 60,4 em 2010 para 100,6 em 2022, indicando que, pela primeira vez, o número de idosos pretos superou o de jovens. A idade mediana também aumentou de 31 para 36 anos.
A educação é um pilar fundamental para o desenvolvimento social e econômico, atuando como principal vetor de mobilidade social e redução de desigualdades. No entanto, os indicadores educacionais revelam disparidades persistentes que limitam as oportunidades da população preta. Em 2022, a taxa de alfabetização da população preta de 15 anos ou mais em Goiás era de 91,3%, inferior à da população branca no Estado (95,7%), mas ligeiramente superior à média da população preta no Brasil (89,9%).
As desigualdades se tornam mais acentuadas em níveis mais altos de instrução. A análise da população com 25 anos ou mais mostra que a conclusão do ensino superior ainda é um desafio significativo para a população preta. Os dados demonstram inequivocamente que, em Goiás, o percentual de pessoas brancas com ensino superior completo (24,8%) é mais que o dobro do percentual de pessoas pretas (12,2%). Essa disparidade no topo da pirâmide educacional representa uma barreira estrutural para o acesso a melhores posições no mercado de trabalho e a maiores rendimentos.
As desigualdades começam cedo. A taxa de frequência escolar bruta, que mede a participação total na educação formal, revela que a população preta em Goiás possui a menor taxa (20,9%) em comparação com a população branca (26,0%) e parda (26,7%) no estado, de acordo com dados de 2022.
A análise do acesso à educação infantil, etapa crucial para o desenvolvimento cognitivo e social, expõe uma disparidade ainda mais fundamental. Em 2022, as crianças pretas de até 5 anos representavam 5,1% do total de crianças matriculadas em creches e pré-escolas em Goiás. Este percentual é considerado baixo, quando contextualizado pela demografia do estado, onde a população preta corresponde a 9,2% do total de habitantes.
Rendimento médio – A presença da população preta no mercado de trabalho goiano tem crescido consistentemente. O percentual de pessoas pretas ocupadas e com rendimento em Goiás aumentou de 6,1% em 2012 para 11,3% em 2024, refletindo o crescimento demográfico e uma maior inserção econômica. Contudo, ao analisar a condição em relação à força de trabalho em 2022, observam-se diferenças na vulnerabilidade ao desemprego. A taxa de desocupação da população preta em Goiás foi de 4,2%, superior à da população branca (3,4%), indicando um maior desafio na busca por emprego.
Em 2022, o rendimento médio de uma pessoa preta era de R$ 2.242,53, enquanto o de uma pessoa branca de R$ 3.609,32. Esses valores revelam que uma pessoa de cor branca, em Goiás, recebeu em média 37,9% a mais que uma pessoa de cor preta, segundo o Censo Demográfico 2022.
A análise revela ainda uma dupla desigualdade: racial e de gênero. Em Goiás, o rendimento médio de homens pretos (R$ 2.448,29) é significativamente maior que o de mulheres pretas (R$ 1.904,52), que enfrentam desvantagens no mercado de trabalho.
Violência sexual – A saúde é um indicador multifacetado, influenciado por fatores socioeconômicos, ambientais e de acesso a serviços. O acesso a planos de saúde privados é um forte indicador de desigualdade, pois está diretamente ligado à renda e ao tipo de vínculo empregatício. Em 2019, apenas 19,7% da população preta no estado possuía plano de saúde, em comparação com 34,1% da população branca. Essa diferença limita o acesso a uma rede de cuidados mais ampla e ágil.
Em Goiás, o percentual de pessoas pretas que sofreram violência sexual alguma vez na vida é de 8,0%, quase o dobro do percentual observado na população branca (4,2%).
Dados habitacionais – As condições de moradia, o acesso a saneamento básico e a inclusão digital são indicadores cruciais da qualidade de vida e da igualdade de oportunidades. Dados do Censo 2022 mostram que, do total de moradores em favelas e comunidades urbanas em Goiás, 12,6% são pessoas pretas. Esta representação é proporcionalmente maior que a participação da população preta na população total do estado (9,2%), sugerindo uma maior vulnerabilidade habitacional.
O acesso a serviços básicos como água potável, embora amplo, ainda apresenta deficiências críticas. Apesar da alta cobertura geral, os dados indicam que 94,5% dos moradores pretos dessas comunidades possuem água canalizada dentro de casa. Isso significa que mais de 600 residentes pretos em assentamentos informais de Goiás ainda carecem do direito humano básico à água encanada em seus lares, um indicador contundente da persistente desigualdade de infraestrutura.
Acesso à internet – Contudo, persiste uma brecha digital com recorte racial. Em 2022, dos moradores em domicílios com conexão à internet em Goiás, a população preta representava 8,3% do total, enquanto a branca correspondia a 33,7%.
Dados mais recentes, de 2024, sobre o uso individual da internet, confirmam essa disparidade. O percentual de pessoas pretas que não utilizaram a internet em Goiás (7,5%) é notavelmente maior do que o de pessoas brancas (5,8%). Essa exclusão digital limita o acesso a informações, serviços e oportunidades, aprofundando as desigualdades existentes.
SES/GO – Seção de Disseminação de Informações
17 de novembro de 202