Tendência

 Recuperação judicial no agro bate recorde e acende alerta no crédito rural e na governança do setor, avalia especialista

 

Agronegócio lidera proporcionalmente o ranking de recuperações judiciais; advogado aponta banalização do instrumento e efeitos sistêmicos na cadeia de crédito  

São Paulo, dezembro de 2025 – O crescimento acelerado dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro voltou a acender o sinal amarelo no setor. O movimento já produz efeitos concretos no campo, como encarecimento do crédito, retração de financiamentos e exigência crescente de garantias por parte dos bancos e cooperativas.  

Levantamento daSWOT Global Consulting projeta que o Brasil deve ultrapassar 3 mil pedidos de recuperação judicial em 2025, com concentração nos setores de varejo, construção civil e agronegócio. No campo, a escalada chama a atenção: dados da Aprosoja e da Abramilho indicam que produtores rurais ingressaram com 2.273 pedidos de RJ em 2024, um crescimento de 61,8% em comparação com 2023.
 

Para Fernando Tardioli, advogado especializado em recuperação judicial e crédito, sócio do escritório Tardioli Lima Advogados, o dado revela uma distorção perigosa no uso do instrumento.
 

“A recuperação judicial deixou de ser exceção e passou, em muitos casos, a ser estratégia de negócio. Quando isso acontece, o efeito não se limita ao produtor em crise. Ele contamina todo o mercado de crédito, encarece o financiamento e penaliza quem é saudável financeiramente”, afirma.
 

Segundo ele, a recuperação judicial, quando usada inadequadamente, provoca um efeito dominó: aumenta a percepção de risco, afeta a previsibilidade das operações e reduz a disposição do sistema financeiro em conceder crédito ao setor como um todo.  

Mais do que o volume, o que preocupa é a gravidade proporcional do problema. Segundo levantamento do Monitor RGF, da consultoria RGF & Associados, o agronegócio é atualmente o setor com maior proporção de empresas e empresários em recuperação judicial no Brasil. Apenas no terceiro trimestre, havia 443 empresas do agro sob regime de RJ, um avanço de 67,8% ante o mesmo período do ano anterior, o maior nível já registrado desde o início da série histórica.  

“Bancos não trabalham com emoção, trabalham com risco. Quando há judicialização em massa, o spread sobe automaticamente e as portas se fecham até para quem tem bom histórico”, explica. Outro ponto frequentemente ignorado por produtores, segundo o advogado, é o custo real da recuperação judicial. Honorários advocatícios, administrador judicial, auditorias, perícias e assessorias especializadas tornam o processo caro e, muitas vezes, insustentável.  

O indicador IRJ (Índice de Recuperação Judicial) reforça essa distorção: enquanto no agronegócio 12,63 a cada mil empresas e empresários estavam em recuperação judicial, na indústria de transformação o índice era de 6,49, e a média nacional apenas 2,04. Proporcionalmente, o setor rural apresenta um nível de judicialização seis vezes maior que o restante da economia.  

“Há casos em que os custos da recuperação judicial se tornam superiores à própria capacidade de geração de caixa da empresa e do produtor rural. O produtor entra achando que vai ganhar fôlego e acaba assumindo uma estrutura que drena o pouco que ainda tinha”, destaca.  

Além dos custos financeiros, o impacto reputacional é severo. Empresas em recuperação judicial enfrentam dificuldades para renegociar contratos, acessar crédito e manter relações comerciais. “A recuperação judicial compromete a credibilidade de mercado. Não é só uma decisão jurídica, é um evento que muda a percepção sobre a confiança naquele produtor”, observa.  

O avanço das RJs no campo já provoca reflexos diretos no financiamento rural. Segundo Tardioli, instituições financeiras vêm apertando critérios de concessão de crédito e elevando o nível de exigência em relação às garantias. “Quando o Judiciário vira caminho frequente para resolver problemas de caixa, o sistema responde com juros mais altos e menos crédito. O produtor correto acaba pagando a conta pela irresponsabilidade de outros”, analisa.

Sobre o Tardioli Lima Advogados

Com sede em São Paulo e 25 anos de atividade, o Tardioli Lima Advogados atua em diversas áreas do direito, entre elas agronegócio, franchising, recuperação de crédito, direito empresarial, trabalhista, tributário, societário, regulatório, entre outros. Reconhecido por oferecer um atendimento personalizado, ágil e estrategicamente alinhado à dinâmica de seus clientes, o escritório assessora empresas nacionais e internacionais, associações e grupos setoriais de diferentes portes.

À frente da banca está o advogado Fernando Tardioli, profissional com cerca de 25 anos de experiência, referência em direito empresarial e no segmento de franquias, além de empresário e produtor rural, o que lhe traz uma visão prática e ampla das demandas corporativas. Tardioli é o atual Presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Cavalos da Raça Mangalarga (ABCCRM), também foi Diretor Jurídico do World Franchise Council (WFC), da Federação Iberoamericana de Franquias (FIAF) e da Associação Brasileira do Franchising (ABF) e atualmente é membro do Conselho da entidade. O Tardioli Lima Advogados conta ainda com uma equipe altamente qualificada, preparada para contribuir com artigos, análises técnicas e debates jurídicos sobre os principais temas do mercado.

Botão Voltar ao topo