Seca e queimadas: Araguaia pode ser atravessado a pé ou para montar barraca em seu leito

Texto e fotos: Wandell Seixas
A seca e as queimadas, agravadas pela crise climática e pelo fenômeno El Niño, estão causando um estrago sem precedentes. O repórter percorreu a região do Vale do Araguaia e viu de perto o drama da população ribeirinha e dos municípios. As pessoas, ênfase para os agropecuaristas, estão apavoradas com tanto estrago.
Os rios estão baixos. No Araguaia, sobretudo em Aragarças, pode-se transitar praticamente a pé ante a areia formando praias nos lugares antes profundos. Há quem monte barracas no meio do rio e passe o dia gastando o tempo contra o calor reinante. A navegação está impraticável para os barcos de médio porte, exceto canoas e voadeiras e mesmo assim requer perícia dos pilotos. “A redução da quantidade de água é muito significativa nos últimos 40 anos e se acentuou neste século”, diz Luiz Côrtes, do Instituto de Energia e Ambiente da USP.
Essa redução é causada por motivos como o desmatamento da Amazônia, que tem reduzido as chuvas que ajudam a irrigar o Pantanal, e do Cerrado, o que compromete o abastecimento de rios e nascentes importantes. O caso da Amazônia é o fenômeno dos rios voadores, em que a umidade da floresta atravessa o Brasil de Norte a Sul e precipita ao longo do caminho. Com menos área florestada, porém, diminui também o potencial desse ciclo hídrico.

Já o Cerrado é até mais preocupante, pois o problema segue sem perspectiva de melhora: “O Cerrado, hoje, está assumindo esse protagonismo negativo em termos de desmatamento porque a fiscalização na Amazônia aumentou, então, houve uma mitigação desse desmatamento ilegal”, afirma o professor.
“No Cerrado tem vários rios importantes que irrigam bacias do Nordeste, do Norte, do Sudeste e essas nascentes estão ficando comprometidas, ou seja, o rio no seu nascedouro já nasce com pouca água, com uma redução do volume de água, e isso vai impactar as bacias que são abastecidas por esses rios. Então, nós temos esse desmatamento do Cerrado repercutindo em outras bacias, repercutindo no Pantanal, e isso é evidente pelo levantamento do MapBiomas. Nós precisamos não só zerar o desmatamento, mas começar a recuperação de áreas degradadas”, explica ele.
Esse cenário também cria um ciclo vicioso, pois a diminuição dos níveis de água afeta o potencial energético das usinas hidrelétricas. Gerando menos energia pela água, a alternativa usada pelo governo é acionar as termoelétricas, que emitem muito carbono. Ao emitir muito carbono, contribui-se para o aquecimento global, que também piora a situação. A conclusão é que, se nada for feito, o ciclo de desastre tende a piorar de maneira contínua e acelerada.
Não chove há cerca de cinco meses em Goiás e, por extensão, em todo o Planalto Central. A queda na umidade do solo, altas temperaturas e as chuvas abaixo da média dos últimos 15 anos em praticamente todos os estados vão prejudicar o início do plantio da soja a partir da segunda quinzena de setembro, quando termina o vazio sanitário em algumas regiões, avalia a EarthDaily Agro, empresa de sensoriamento remoto com uso de imagens de satélites.
Segundo a Secretaria do Meio Ambiente existe mais de 500 focos de incêndios, exigindo do Corpo de Bombeiros uma ação ininterrupta em diferentes locais. São mais de oitenta viaturas e mais de duzentos homens. Na Chapada dos Veadeiros, no Nordeste Goiano, os bombeiros lutam como podem, não havendo tempo para dormir.
Dicas de economia de energia
O Brasil está vivendo um momento delicado em relação aos seus recursos hídricos. Com a seca persistente afetando várias regiões, os reservatórios de água, que também abastecem as hidrelétricas, estão em níveis preocupantes. Essa realidade não impacta apenas o abastecimento de água, mas também a geração de energia, que depende de grande parte das usinas hidrelétricas.
A partir deste mês, essa situação trará um reflexo direto no bolso dos brasileiros: a conta de energia elétrica sofrerá um aumento com a ativação da bandeira vermelha. Essa mudança representa um desafio adicional para as famílias e empresas, que precisarão lidar com a uma tarifa mais alta em um contexto de incerteza hídrica e crescente demanda por alternativas energéticas. A Aneel deve implementar a bandeira vermelha este mês, o que resultará em uma taxa extra para os consumidores. O aumento nas despesas é agravado pela necessidade de ajustes no reajuste anual das distribuidoras de energia, previsto para impactar o bolso dos consumidores.