Sufoco no agronegócio é apontado em Goiás
Wandell Seixas
Uma série de fatores está provocando uma crise impactante no setor agrícola. Para agravar o quadro, o Banco do Brasil, considerado como agente financeiro mais próximo do produtor, ameaça quem se sente prejudicado. O Instituto Brasileiro de Insolvência repudia “veementemente as declarações do vice-presidente de riscos do Banco do Brasil, Felipe Prince, que afirmou que produtores rurais que ingressarem com pedido de recuperação judicial “não terão crédito hoje, amanhã nem nunca mais”.
É surpreendente porque a atividade respondia com recorde de safra a cada novo ano. A segurança alimentar era comemorada por toda a cadeia do agronegócio. Agora, paira dúvida. Os sindicatos rurais de Porangatu, no norte de Goiás, e Montividiu, no Sudoeste, reagiram com manifestações públicas. Em Rio Verde, maior pólo do agro do Centro-Oeste, o presidente da Comigo, Antônio Chavaglia, uma das maiores cooperativas do País, também reage.
No Congresso Nacional, a bancada ruralista, representada pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), manifesta preocupação com uma crise no agronegócio, com foco especial na alta inadimplência e nas dificuldades enfrentadas pelos produtores nos anos de 2024 e 2025. A Federação da Agricultura está avaliando o momento agropecuário. Mas, de antemão, atribui parte da crise ao clima e endividamento crescente.
Para a entidade, presidida pelo deputado federal José Mário Schreiner, “falta política e este governo atual esqueceu o setor”, numa referência a Lula. A Faeg cita cita, ainda, problemas ocasionados por investimentos elevados a custos muito altos, juros exorbitantes” e a conta chegou.
Na Assembléia Legislativa, o deputado Amauri Ribeiro reagiu com veemência, acusando da tribuna o atual governo federal. Observou que “o produtor está abandonado”. Alexandre Caixeta, produtor em Silvânia, atribuiu às dificuldades aos custos elevados e aos preços sem projeções. Mas, aponta também o tempo, taxas elevadas, cotação do dólar e os acordos mundiais. Diz ainda que o arrendamento “é outro complicador”.
Os sindicatos rurais goianos argumentam que “uma crise severa que se instala no campo”. Em comunicados oficiais, os sindicatos de Montividiu e de Porangatu manifestam “profunda preocupação” com a conjuntura enfrentada pelos produtores. A situação é descrita como uma “tempestade perfeita”: o clima não está colaborando, os custos de produção estão elevados, os preços das commodities estão baixos e o crédito está escasso.
Em Montividiu a situação climática é um dos pontos mais críticos. As previsões de climatologistas sobre chuvas normais no início da estação não se confirmaram, dando lugar a uma estiagem ou chuvas muito irregulares. Jonny Chaparini, presidente do Sindicato Rural, desabafa sobre a disparidade em relação ao ano anterior.
“No ano passado, nós tínhamos em torno de 70% plantados. Este ano, não tem 25-30%”, observou. A informação é confirmada pela nota oficial da entidade. Segundo o presidente, muitos produtores estão com medo de perder o investimento e aguardam a regularização das chuvas para plantar. A nota alerta ainda para o risco de “perda ou de replantio”.
Chaparini critica também a dissonância entre a realidade do campo e as projeções de mercado. “Os órgãos governamentais falam que será uma super safra, que o clima é bom”, diz o dirigente classista. Essa pressão, que o sindicato classifica como “desanimadora”, joga os preços para baixo. O produtor se vê em um dilema: “Ele tem que produzir porque tem que produzir, senão não vou pagar minhas contas. Aí ele produz e não tem preço”, lamenta. No Norte, a situação é igualmente “desafiadora”. A nota do Sindicato Rural de Porangatu, assinada pela presidente Ana Amélia Paulino, lista problemas que se somam irregularidade das chuvas.
Principais preocupações
As principais preocupações da bancada ruralista e os motivos da crise incluem:
- Inadimplência recorde: Em 2024, a inadimplência no setor atingiu o maior nível em anos, levando a um aumento expressivo de pedidos de recuperação judicial. A inadimplência é mais acentuada entre grandes produtores, mas afeta todo o setor.
- Crédito restrito e juros altos: a queda nos investimentos e o aumento dos custos do Plano Safra. A restrição de crédito e as altas taxas de juros, agravadas por um cenário de instabilidade global, encarecem a produção e pressionam os produtores.
- Quebras de safra: Eventos climáticos extremos e quebras de safra em 2024 contribuíram para a queda da renda dos produtores.
- Falta de seguro rural: mais recursos para o seguro rural, como uma forma de proteger os produtores de eventos imprevisíveis, como a crise climática. A ausência de um plano de seguro robusto para a safra 2025/26 foi uma crítica específica levantada em 2025.
- Disputa por recursos e isenções: contra propostas de mudanças na tributação de aplicações financeiras, como as Letras de Crédito do Agronegócio, que poderiam afetar os benefícios fiscais do setor.
- Críticas ao governo: críticas ao governo federal, apontando desorganização no anúncio do Plano Safra 2024/2025 e expressando preocupação com a queda de investimentos. Houve também embates sobre a participação do agronegócio no Plano Clima, com a bancada discordando da responsabilização do setor.