Tarifaço de Trump representa oportunidades para o agronegócio

Wandell Seixas
As recentes alterações tarifárias anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, têm gerado debates acalorados no cenário internacional. Essas medidas, que incluem a imposição de tarifas significativas sobre importações de diversos países, têm o objetivo declarado de proteger a economia doméstica norte-americana e levantam preocupações sobre possíveis repercussões globais.
No Brasil, as tarifas têm sido vistas com preocupação. Mas também como uma oportunidade. Sabrina Lawder, da Tributos Internacionais e Tax Controversy da Grant Thornton, acredita que as tarifas podem forçar o Brasil a diversificar suas exportações e buscar novos mercados, “aumentando as exportações para países que têm desavenças tarifárias com os EUA, considerando especialmente a boa safra agrícola prevista”, pontua. É o caso das carnes, por exemplo, onde Goiás desponta com a sua pecuária ativa, segundo a Faeg.
Posição do Ministro
Dessa opinião, manifesta também o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro. Segundo ele, as tarifas adicionais aplicadas pelos Estados Unidos podem ser oportunidade para o agronegócio brasileiro, que é “muito competitivo”. Segundo ele, “infelizmente” as ações do governo Trump podem atrapalhar os mercados internacionais.
“Mas o Brasil tem competência e certamente vai saber usufruir disso e fazer disso uma grande oportunidade”, afirmou o ministro, que participou ontem de conferência sobre etanol de milho, promovida pela Datagro e pela União Nacional do Etanol de Milho.
“O Brasil é muito competitivo principalmente na agropecuária, isso pode não se tornar, se soubermos agir…, vai se tornar uma oportunidade para o Brasil”, observou.
Ele admitiu também que a alta da taxa Selic desafia a chamada equalização de juros para o Tesouro subsidiar as taxas do Plano Safra.
Espaço para o Brasil
Sabrina explica que as novas tarifas podem tornar o agronegócio dos EUA menos competitivo no cenário internacional, abrindo espaço para os produtos brasileiros. “A demanda global por alimentos continua a crescer e o Brasil é um dos maiores fornecedores globais de vários gêneros agrícolas, sendo uma oportunidade para o País consolidar sua posição como um dos líderes mundiais no agronegócio”.
Entretanto, salienta que o aquecimento das exportações do agronegócio pode resultar em um aumento interno dos preços dos alimentos, criando desafios extras à pressão inflacionária atual. “O País precisa de estratégias eficazes para sustentar o crescimento das exportações e a participação do agronegócio no cenário internacional, ao mesmo tempo, em que precisa segurar a disparada de preços nos supermercados, fenômeno verificado desde o ano passado”.
Em sua opinião, o agronegócio brasileiro está preparado para lidar com novos mercados e o aumento das exportações, mas não está isento de desafios para suprir a demanda. “Atualmente há grande preocupação internacional com questões relacionadas à adoção de práticas agrícolas sustentáveis, mas também existem mecanismos que atestam essa preocupação por parte das empresas, como certificações ambientais internacionais”, ressaltando a importância de projetar uma imagem positiva do agronegócio brasileiro no comércio exterior das commodities.
Avaliação da CNA
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil avaliou que o Projeto de Lei 2.088/2023, conhecido como PL da Reciprocidade, vai garantir ao Brasil a adoção de mecanismos para responder a barreiras comerciais impostas por outros países.
A proposta foi aprovada pelo Plenário da Câmara, em votação de regime de urgência. Na terça (1º), a matéria foi aprovada na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado em caráter terminativo, sem a necessidade de votação pelos senadores no Plenário.
A diretora de Relações Internacionais da CNA, Sueme Mori, ressaltou que a aprovação do PL é essencial diante da crescente adoção de medidas unilaterais e discriminatórias por países ou blocos econômicos, que prejudicam a competitividade e o acesso dos produtos brasileiros ao mercado internacional.
O relator do PL na Câmara foi o deputado Arnaldo Jardim que apresentou parecer favorável à sua aprovação. Ele lembrou que o Brasil tem tradição em negociações comerciais, tanto em termos multilaterais quanto com diferentes blocos comerciais.
“Mais do que isso, o Brasil sempre buscou preservar as regras do comércio internacional, aplicando direitos antidumping e outras medidas, bem como recorreu inúmeras vezes à Organização Mundial do Comércio como instância para preservar seus interesses, buscar acordos e para o estabelecimento de medidas compensatórias”, ressaltou.
Segundo ele, essa tradição deve ser mantida. “A decisão do Congresso Nacional de dotar o País de instrumentos que lhe permitirão responder a ações restritivas às nossas exportações e ao nosso comércio internacional vem como uma salvaguarda, se necessário”, acrescentou.
Tapias dá sua opinião
Camila Tapias, sócia fundadora do Utumi Advogados, discorre sobre as vantagens e oportunidades para o Brasil diante do cenário de tarifaço do Trump:
“Apesar do impacto negativo da tarifa de 10% sobre os produtos do agronegócio brasileiro, há também algumas oportunidades que podem ser exploradas. Em um cenário de aplicação tarifária ampla e generalizada pelos Estados Unidos, muitos países fornecedores — inclusive concorrentes diretos do Brasil — também serão afetados. Nesse contexto, o Brasil pode manter ou até ampliar sua participação no mercado americano em alguns nichos específicos, graças à sua capacidade produtiva, escala e preços competitivos.
Além disso, se o Brasil conseguir negociar bilateralmente algum tipo de exceção ou tratamento diferenciado, como já ocorreu em outros momentos com produtos como carne bovina ou etanol, pode transformar parte dessa pressão inicial em vantagem relativa. A tarifa de 10% é mais baixa do que a aplicada a outros países e isso, por si só, já posiciona o Brasil em condição menos desfavorável em relação a concorrentes que enfrentam tarifas mais altas ou barreiras não tarifárias.
Por fim, esse cenário pode estimular o setor a diversificar ainda mais seus mercados de exportação, investindo em acordos comerciais com outras regiões, como Ásia e Oriente Médio, reduzindo a dependência dos EUA e fortalecendo ainda mais o agronegócio brasileiro no médio prazo.”
Nota da Amcham Brasil e da Seção Brasileira do Fórum de CEOs sobre tarifas dos EUA às exportações brasileiras
Brasil e Estados Unidos mantêm uma relação econômico-comercial equilibrada, complementar e mutuamente benéfica, que gera milhões de empregos em ambos os países. As empresas que participam dessa relação desejam ampliar ainda mais o comércio e os investimentos bilaterais.
O anúncio do governo dos Estados Unidos de aplicar tarifas de 10% sobre as exportações brasileiras a partir de 5 de abril tem potencial de gerar impactos relevantes no comércio e nos investimentos entre os dois países, com efeitos sobre empresas, trabalhadores e as economias do Brasil e dos Estados Unidos.
É importante destacar que, em 2024, os Estados Unidos registraram superávit de US$ 29 bilhões na balança de bens e serviços com o Brasil. Nos últimos dez anos, esse superávit acumulado chegou a US$ 257 bilhões a favor dos Estados Unidos, contribuindo para o objetivo americano de redução do seu déficit comercial global.
Iniciativas voltadas ao aprimoramento do acesso a mercados e ao aprofundamento do comércio e dos investimentos entre os dois países são legítimas e bem-vindas. Para que gerem resultados duradouros e positivos, é fundamental intensificar o diálogo entre os dois governos — de forma construtiva e com a participação ativa do setor produtivo.
Câmara Americana de Comércio para o Brasil – Amcham Brasil
Seção Brasileira do Fórum de CEOs Brasil–Estados Unidos