Workshop mostra desafios da produção e da sustentabilidade
Wandell Seixas
As mudanças climáticas e a agricultura foram o tema central do 2º Workshop para jornalistas na Casa de Melhoramentos em São Paulo nesta terça, sob o patrocínio da Associação Brasileira do Agronegócio com o apoio da Bayer. Ingo Ploger, vice-presidente da Abag, discorreu sobre a importância da preservação ambiental, da cadeia integrada e dos desafios para manter a produção de escala, alimentar um bilhão de pessoas e o compromisso do setor com a sustentabilidade.
Respondendo as críticas à pecuária pela emissão de carbono, disse em tom de blague que “o boi é o vilão, não come petróleo, mas fornece proteína animal”. Em sua visão, a agropecuária “pode ser um agente de transformação dentro da agenda de adaptação e mitigação das mudanças climáticas”.
Para Gislaine Balbinot, diretora executiva da Abag, a maior preocupação hoje não é o desmatamento, “mas sim a desertificação”. Na sua visão, além das enchentes recentes, a desertificação também é um problema grave. Esses extremos climáticos são resultados das mudanças climáticas, que causam chuvas excessivas em alguns momentos e secas em outros, afetando todo o sistema global.
Segundo a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, até 40% das terras do planeta estão degradadas, afetando diretamente metade da população mundial e ameaçando cerca de metade do PIB global (US$ 44 trilhões). Desde 2000, o número e a duração das secas aumentaram 29%, e sem ação urgente, mais de três quartos da população mundial podem ser afetados até 2050.
Felipe Albuquerque, Carla Gheler, Ana Paula Pacherm Natascha Trennepohl, Laura Antoniazzi e Renato Rodrigues, Luciano Rodrigues também participaram do evento, oferecendo a sua contribuição. Chamaram a atenção para a COP30, prevista para novembro em Belém (PA). Para os conferencistas e demais participantes, o encontro representou uma excelente oportunidade para que a agroindústria seja reconhecida como parte da solução para os desafios climáticos.
O Brasil é uma potência agrícola, que contribui para o abastecimento de alimentos e também energia alternativa, mas que apresenta às vezes uma imagem negativa, desvalorização dos produtos, dificuldades nas negociações internacionais. A população mundial cresce 35%, aumentando o consumo per capita. Os asiáticos que viviam no meio rural, hoje optam pelos centros urbanos.
Para superar essas ações atinentes a desmatamentos e incêndios, a tendência é que cresça o sistema de rastreamento via satélite tanto nos diferentes biomas brasileiros e mundiais. Isso significa que o setor sofre crescente desafio global. Sem falar, nas pragas e necessidade de conservação do solo.
Na ultima década, o Brasil tem adotado tecnologias adaptativas e regenerativas, capazes de aumentar a resiliência do agronegócio. Dispõe do Plano Nacional de Adaptação à mudança do clima. O objetivo é aumentar a eficiência no uso da terra, melhoria da eficiência no uso de recursos hídricos e nutrientes, cultivo de variedades mais tolerantes a estresses abióticos e bióticos, manejo conservacionista do solo, melhoramento genético, entre outros.
Causas e consequências
O desmatamento, impulsionado pela expansão agrícola e urbana, é um fator significativo que acelera a perda de cobertura vegetal.
Esse processo não apenas reduz a biodiversidade, mas também expõe o solo à erosão e à degradação, tornando-o menos produtivo e mais suscetível à desertificação.
Outro fator crítico é a exploração excessiva dos recursos naturais. A gestão irresponsável da água e da vegetação, juntamente com a pecuária intensiva, leva à degradação dos ecossistemas. As pastagens intensivas provocam erosões graves, impedindo a regeneração natural da vegetação e deixando o solo vulnerável à desertificação.
Essas práticas, muitas vezes motivadas pela busca incessante de lucro a curto prazo, ignoram os impactos ambientais de longo prazo. Por isso, essas grandes corporações, ao promoverem práticas insustentáveis, são as principais responsáveis pela mitigação da desertificação, ao mesmo tempo, possuem o poder e os recursos para reverter essa tendência.
No Brasil, as queimadas representam uma grande ameaça à biodiversidade e à saúde humana, e também desempenham um papel significativo no processo de desertificação. De acordo com levantamentos do Mapbiomas, de 1985 a 2020, cerca de 14,42 milhões de hectares foram queimados pelo menos uma vez, resultando em uma redução de 10% na cobertura remanescente de vegetação nativa em todo o bioma.
Essa degradação do solo e da vegetação aumenta a vulnerabilidade das áreas afetadas à desertificação, tornando o ambiente propício para a erosão e a perda de fertilidade do solo. Além disso, as queimadas liberam grandes quantidades de gases de efeito estufa na atmosfera, exacerbando ainda mais os efeitos das mudanças climáticas e criando um ciclo de degradação ambiental.
As consequências da desertificação são profundas e assumem diversas formas. A perda de solo fértil resulta em uma redução significativa na produtividade agrícola, ameaçando a segurança alimentar global.
De acordo com a ONU, mais de 24 bilhões de toneladas de solo fértil desaparecem anualmente, e se nada for feito, até 2050 poderemos perder 1,5 milhão de km² de terras agrícolas. Esse cenário teria um impacto direto na capacidade de alimentar uma população global crescente, exacerbando a fome e a pobreza em muitas regiões.
Portanto, é essencial adotar medidas urgentes para combater as queimadas e promover práticas sustentáveis de manejo da terra, a fim de proteger nossos ecossistemas e evitar a progressão da desertificação no Brasil.