Tendência

Tarifaço causa temor ao mercado da carne goiana

 Wandell Seixas

 A imposição de uma tarifa adicional de até 50% sobre as importações de produtos brasileiros pelos Estados Unidos, com vigência prevista para 1º de agosto de 2025, acendeu um sinal de alerta no agronegócio nacional. Segundo pesquisadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da ESALQ/USP, suco de laranja, café, carne bovina e frutas frescas estão entre os itens mais expostos à medida, que pode comprometer receitas, provocar desequilíbrios de mercado e, sobretudo, pressionar os valores pagos ao produtor. Os pecuaristas e frigoríficos de Goiás mostram-se temerosos com a adoção do “tarifaço”.

Os Estados Unidos são o segundo maior comprador da carne bovina brasileira, respondendo por 12% das exportações, atrás apenas da China, que concentra 49% do total embarcado pelo Brasil. Dados da Secex mostram que, em junho, o volume adquirido pelos norte-americanos já foi o menor desde dezembro do ano passado, mas as exportações totais de carne bovina brasileira tiveram o segundo melhor resultado do ano, beirando as 270 mil toneladas.

Leonardo Machado, experto do  Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (IFAG), afirma que a imposição americana sobre a carne bovina brasileira “tem gerado forte impacto no mercado do boi gordo”. Segundo ele, “desde o anúncio do tarifaço, os preços da arroba vêm recuando de forma consistente”.  No caso goiano, a arroba do boi  gordo caiu de R$281,10 para R$275,25 em uma semana”.

Em sua visão, “essa queda reflete a dificuldade de escoamento da produção diante da perda de competitividade no mercado externo, especialmente nos Estados Unidos, que são o segundo principal destino da carne bovina brasileira”. Leonardo entende que a “tendência é que os preços da arroba sigam pressionados enquanto não houver uma definição sobre o impasse com os EUA.

            Em sua opinião, caso a situação se estenda, o risco é de acúmulo de boiadas prontas para abate, o que pode intensificar ainda mais a queda e impedir que a entressafra provoque as altas normalmente esperadas para este período do ano. A China permanece como principal comprador da carne bovina brasileira, mas a perda de um mercado importante como os Estados Unidos afeta o equilíbrio  das exportações e força o setor a buscar novos destinos ou ampliar vendas em mercados já consolidados, “o que nem sempre ocorre  com a mesma margem de lucro ou velocidade de escoamento”.

Em março e abril, empresas dos EUA adquiriram volumes recordes, acima de 40 mil toneladas em cada mês, num possível movimento de formação de estoque diante do receio de que o presidente Donald Trump viesse a aumentar as tarifas para o comércio internacional.

Em abril, foram importadas 47.836 toneladas (in natura e processada); já no mês seguinte, o volume se reduziu quase à metade e, em junho, baixou mais 33% sobre o volume de maio. Em termos absolutos, as compras norte-americanas foram de 18.232 toneladas no último mês.

Apesar da redução para os Estados Unidos, o volume total exportado pelo Brasil em junho foi bem próximo ao de abril – diferença de 2.705 toneladas, equivalentes a 1%. Boa parte da compensação de abril para junho ocorreu com o aumento dos embarques principalmente à China, que tem ampliado mensalmente suas compras desde fevereiro.

De abril para junho, os EUA diminuíram o volume em 29.603 toneladas, enquanto a China aumentou em 27.782 toneladas. Em junho, especificamente, vários outros parceiros comerciais também aumentaram suas compras frente a maio.  Segundo Thiago Bernardino de Carvalho, “esse fluxo sinaliza que frigoríficos brasileiros têm possibilidade de ampliar suas vendas em outros mercados, ainda que haja dificuldade quanto ao ajuste de cortes demandados”.

São Paulo, Goiás e Mato Grosso do Sul são os estados, nesta ordem, que mais têm escoado carne aos EUA. A redução de Goiás foi a maior de abril para junho, de 9.283 toneladas a menos de carne. O volume do último mês representou apenas 37% do que foi enviado em abril. Em Mato Grosso do Sul, junho equivaleu a apenas 44%, com diminuição de 3.962 toneladas. Reduções significativas ocorreram também nos demais estados relevantes da pecuária. São Paulo é o que teve a menor diminuição de volume, de 1.802 toneladas, com junho ainda representando 73% dos embarques de abril.

Suco de laranja – Segundo análise do Cepea, o suco de laranja é o produto mais sensível à nova política tarifária. Isso porque já incide atualmente uma tarifa fixa de US$ 415 por tonelada sobre o produto, e a aplicação de uma sobretaxa de até 50% elevaria significativamente o custo de entrada nos Estados Unidos, comprometendo sua competitividade no segundo maior destino dos embarques brasileiros. Atualmente, os Estados Unidos importam cerca de 90% do suco que consomem, sendo o Brasil responsável por aproximadamente 80% desse total. Com a sinalização da tarifa, pesquisas do Cepea apontam que indústrias brasileiras já passaram a suspender novos contratos, limitando-se ao mercado spot, com valores entre R$ 40,00 e R$ 45,00 por caixa, diante do elevado grau de incerteza.

Café – Os Estados Unidos são o maior mercado consumidor global e respondem por cerca de 25% das importações de café brasileiro (principal mercado), especialmente da variedade arábica, insumo essencial para a indústria local de torrefação.

De acordo com a equipe Cepea, o impacto é estrutural: como os EUA não produzem café, a elevação do custo de importação compromete diretamente a viabilidade econômica da cadeia interna, que envolve torrefadoras, cafeterias, indústrias de bebidas e redes de varejo.

 “A exclusão do café do pacote tarifário é não apenas desejável, mas estratégica, tanto para a sustentabilidade da cafeicultura brasileira quanto para a estabilidade da cadeia de abastecimento norte-americana”, destaca Renato Ribeiro, pesquisador de café do Cepea.

Frutas frescas – O impacto imediato recai sobre a manga, cuja janela crítica de exportação aos EUA inicia-se em agosto. Segundo indica o Cepea, já há relatos de postergação de embarques frente à indefinição tarifária. A uva brasileira, cuja safra tem calendário relevante para os EUA a partir da segunda quinzena de setembro, também passa a integrar o grupo de culturas em alerta.

Pesquisadores do Cepea indicam que, até o anúncio da medida, a expectativa era de crescimento das exportações de frutas frescas em 2025, sustentada pela valorização cambial e pela recomposição produtiva de diversas culturas. Contudo, o cenário tornou-se incerto.

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