Mercado de algodão enfrenta desafios, mas dobra a produção no Brasil
Wandell Seixas
O Brasil dobrou, nos últimos anos, sua produção de algodão em pluma, passando de 1,7 milhão de toneladas na safra 2013/14 para uma estimativa de 3,9 milhões de toneladas em 2024/25, segundo dados da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (ABRAPA). O volume consolida a posição do País como maior exportador global da fibra, mas esconde um cenário de complexidade crescente.
A indústria têxtil brasileira tem perdido espaço para concorrentes, o que reforça o foco do setor no mercado externo. Competição com fibras sintéticas, instabilidades comerciais e aumentos nos custos de produção, entretanto, têm pressionado o setor, que busca na inovação do melhoramento genético formas de assegurar ganhos contínuos em produtividade.
Goiás participa desse cenário produtivo e ocupa a sétima posição no ranking nacional de produção na safra 2024/25, com expectativa de que a colheita chegue a 138,2 mil toneladas, conforme o Sistema de Defesa Agropecuária. São produtores os municípios de Goiatuba, Morrinhos, Palmeiras, Turvelândia, Caiapônia, Chapadão do Céu, Mineiros, Jataí, Montividiu, Rio Verde Perolândia, Cristalina, Cabeceiras e Luziânia.
Os órgãos de defesa dos produtores e os cotonicultores atuam firmes no controle de pragas, entre os quais o bicudo do algodoeiro. O setor também se destaca pelo compromisso com a sustentabilidade.
O Programa Algodão Brasileiro Responsável certifica a produção nacional, assegurando que as lavouras atendam a critérios rigorosos de governança, gestão ambiental e condições de trabalho. Essa certificação, reconhecida internacionalmente pelo Better Cotton Initiative, permite acesso à mercados exigentes, especialmente na Ásia, onde a demanda por fibras de alta qualidade continua em crescimento.
Eduardo Kawakami, head de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da TMG – Tropical Melhoramento & Genética destaca que o algodão brasileiro se tornou uma referência internacional por três pilares: produtividade, qualidade de fibra e sustentabilidade. “Esses atributos são indispensáveis para manter o interesse do mercado internacional, especialmente diante da concorrência com as fibras sintéticas, que têm custo menor e produção mais estável”, afirma.
Segundo o especialista, a imagem sustentável do algodão brasileiro é cada vez mais valorizada lá fora. “A rastreabilidade e as boas práticas são exigências em alta, e o Brasil tem respondido a isso. A credibilidade na forma como o algodão é produzido, além da qualidade de fibra é um diferencial competitivo”, diz.
Desafios
Além da questão da qualidade da fibra, Kawakami aponta que o melhoramento genético tem contribuído para reduzir o impacto de doenças e pragas, um dos grandes entraves em regiões tropicais. “Ramulária, nematoides e mancha alvo são desafios constantes. O trabalho de melhoramento tem focado em cultivares mais resistentes, o que reduz a necessidade de aplicações defensivas e contribui para uma produção mais sustentável e economicamente viável”, explica.
Ele acrescenta que o bicudo do algodoeiro, praga de alto impacto econômico, segue como uma das maiores preocupações do setor. “Temos investigado soluções biotecnológicas para o bicudo e, ao avançarmos nisso, daremos um salto real em competitividade”, afirma.
Embora o Brasil se destaque por produzir algodão sem necessidade de irrigação, o que é um diferencial em termos ambientais, o clima tropical impõe outros riscos. “Excesso de chuvas pode comprometer a colheita, e doenças são mais frequentes nesse tipo de clima. É um sistema mais vulnerável, que exige soluções tecnológicas avançadas para garantir estabilidade”, comenta.
Diante de um cenário global instável, com tensões comerciais entre grandes players como Estados Unidos e China, Kawakami acredita que o Brasil tem uma oportunidade de reforçar seu protagonismo. “É um mercado que exige previsibilidade, produtividade e responsabilidade ambiental. O melhoramento genético tem papel direto nisso tudo. Não é mais apenas uma questão agronômica, mas estratégica para o posicionamento do algodão brasileiro no mundo”, conclui.