Confinamento de galinhas põe em xeque práticas do setor alimentício no Brasil
ONG lança campanha nacional pedindo que grandes varejistas não utilizem ou comercializem ovos de galinhas em gaiolas. Prática de confinamento é apontada por especialistas como uma das piores na indústria.
Estima-se que mais de 200 milhões de galinhas poedeiras vivem confinadas em gaiolas na indústria de ovos no Brasil, em 95% do total. Mantidas em um espaço equivalente a uma folha de papel A4, as aves passam praticamente toda a vida sem condições de expressar muitos de seus comportamentos naturais, como ciscar ou abrir as asas. Ao longo dos últimos anos, investigações em granjas de ovos com sistemas de gaiolas em bateria no Brasil documentaram situações de extremo sofrimento animal, como galinhas presas no aramado das gaiolas, convivendo constantemente com ferimentos e doenças respiratórias, entre fezes, urina e, em muitos casos, ao lado de cadáveres de outras aves em decomposição.
Essa realidade é tema da nova campanha de conscientização pública lançada pela organização internacional de proteção animal Mercy For Animals (MFA), “O Pesadelo Escondido”, que pede a varejistas e companhias aéreas que assumam compromissos públicos de não utilizar ou comercializar ovos provenientes de galinhas confinadas em gaiolas. As empresas mencionadas na campanha são Assaí Atacadista, Grupo ABC, Grupo Bahamas, Grupo Pereira (Fort Atacadista), Mart Minas, Roldão Atacadista, Sonda Supermercados, Tenda Atacado, Azul Linhas Aéreas Brasileiras, Gol e LATAM Airlines.
“A proibição da prática de confinamento de galinhas em gaiolas na cadeia de suprimentos das empresas não é apenas uma questão ética, mas também uma demanda do público consumidor e essencial em mercados cada vez mais exigentes. Esse cenário desafia as empresas a responderem à crescente demanda por mais transparência e por políticas de bem-estar animal”, afirma Priscila Demarch, diretora de Campanhas da Mercy For Animals.
Fim das gaiolas: tendência mundial
Por causar extremo sofrimento aos animais, o confinamento de galinhas em gaiolas em bateria já foi banido em países da União Europeia e estados dos Estados Unidos. No Brasil, mais de 180 empresas já estabeleceram compromissos para banir a prática em suas cadeias de suprimentos, em resposta também à demanda dos consumidores e investidores: de acordo com pesquisa Ipsos realizada em março de 2025, 79% dos brasileiros deixariam de consumir produtos de uma marca se descobrissem que ela utiliza ingredientes que causam sofrimento animal, e 76% defendem que supermercados e restaurantes parem de oferecer esses produtos, mesmo com eventual aumento de preço.
“Os consumidores prezam por uma atuação mais transparente e que leve em consideração o bem-estar animal, e o mercado vai ser cada vez mais impulsionado para que haja mudanças efetivas. Empresas que não acompanham esse movimento global correm o risco de se tornarem obsoletas”, afirma Vanessa Garbini, VP de Relações Institucionais e Governamentais da Mercy For Animals. Segundo ela, “Não basta dizer para o público que está comprometido com a sustentabilidade. É preciso demonstrar, com ações e transparência, que a cadeia de suprimentos reflete esse compromisso. A transparência tornou-se um ativo estratégico para marcas que desejam se manter competitivas em um ambiente cada vez mais sensível às causas socioambientais, o que inclui o bem-estar dos animais”.
Um caminho possível e necessário
A Mercy For Animals já auxiliou dezenas de empresas, no Brasil e no mundo, a construir planos de transição viáveis. A organização também mantém monitoramento público dos compromissos assumidos, como forma de incentivar a transparência.
“Eliminar o uso de ovos de galinhas em gaiolas é uma questão ética, mas também estratégica. Não é mais possível dissociar bem-estar animal de responsabilidade social corporativa, o que pode trazer impacto para a competitividade e a reputação das empresas”, conclui Vanessa.
Empresas que querem liderar esse processo podem contar com o apoio técnico e institucional da MFA. Já aquelas que não demonstrarem interesse em assumir um compromisso público podem estar comprometendo não apenas sua imagem perante o público consumidor, mas também sua relevância futura em um mercado cada vez mais consciente.
Para conhecer mais sobre a campanha e saber quais empresas ainda não anunciaram compromissos, acesse: https://opesadeloescondido.com.br/