Brasil sabota seu maior ativo econômico com políticas internas e falhas contra crimes ambientais
Marcello Brito, secretário executivo do Consórcio Amazônia Legal, compartilha sua percepção sobre posicionamento do Agro na COP30, durante o ABMRA Ideia Café
“A Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 não será a COP do povo ou da floresta”. Esse é um ponto de vista do secretário executivo do Consórcio Amazônia Legal, Marcello Brito. Ele enfatiza que os problemas nacionais são de responsabilidade do país e devem ser tratados no dia a dia, independentemente do evento. Por outro lado, Brito enxerga uma oportunidade para o agro demonstrar seu potencial e combater narrativas fantasiosas, distinguindo a agricultura sustentável das práticas ilegais.
O verdadeiro foco da conferência não está na agricultura em si, mas nos sistemas alimentares, que englobam desde a produção de insumos até o consumo final. É nesse contexto que o agronegócio brasileiro precisa se posicionar, utilizando a COP para destacar suas inovações e conquistas, como as cadeias de liderança global em quase 20 setores.
Durante sua participação no ABMRA Ideia Café, promovido pela Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA), o secretário, que já presidiu a Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) e atualmente atua como diretor Acadêmico do Centro Agroambiental da Fundação Dom Cabral e conselheiro de diversas iniciativas e empresas, ressalta a necessidade de uma mudança na postura do setor, de reativa para proativa. Segundo ele, o caminho deve ser pavimentado pelo diálogo aberto com os críticos e pelas bases da ciência para mostrar a realidade.
Barreiras internas
Um dos pontos críticos abordados por Marcello Brito foi o processo de implementação do Código Florestal Brasileiro, que estabelece normas para a proteção da vegetação nativa, incluindo áreas de preservação permanente (APPs), reserva legal e áreas de uso restrito. Considerado o “melhor do mundo”, o código tem menos de 3% de sua aplicação efetiva, segundo o secretário. Ele atribui o atraso, em parte, à judicialização por “ambientalistas radicais” no passado e à inação política.
Contrariando a narrativa de que a imagem do agro brasileiro é negativa no exterior, Brito argumenta que, nos últimos 20 anos, o Brasil aumentou suas exportações sistematicamente, salvo raras questões climáticas ou geopolíticas pontuais. “Vendemos cada vez mais para o mundo inteiro, incluindo a Europa, o mercado mais exigente. Os compradores internacionais conhecem e confiam nos sistemas de rastreabilidade brasileiros, apesar de nós mesmos sabotarmos nossas ações com políticas internas”, diz o secretário.
A verdadeira ameaça, em sua visão, é a imagem do país, manchada por práticas ilegais que ofuscam as conquistas do agronegócio. Para Brito, a falta de implementação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) em todo o país, impede que o setor transforme a proteção ambiental em ativo. Ele afirma ser fundamental que o Brasil resolva problemas como o desmatamento ilegal e a grilagem de terras, que são as verdadeiras fontes de uma imagem desfavorável no exterior.
Pontos fortes para reputação
Questionado pelo presidente da ABMRA, Ricardo Nicodemos, sobre as iniciativas que o Agro deveria comunicar melhor, Marcello Brito destacou três exemplos, ressaltando a importância de basear qualquer comunicação em ciência e dados concretos, e não em artigos de opinião.
Ele apontou a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) como uma inovação única no mundo, capaz de trazer benefícios agronômicos e de aumento de produtividade. Brito também mencionou os Sistemas Agroflorestais, que além da produção comercial, permitem a geração de créditos de carbono e, futuramente, de biodiversidade. Por fim, ele destacou a Agricultura Regenerativa, uma prática que inverte a curva de emissões, demonstrando o potencial do setor para remover mais carbono do que emite.
O secretário espera que a Conferência do Clima não apenas promova o debate sobre essas soluções, mas que também deixe um legado de reconstrução das relações entre o agronegócio e a sociedade, com um diálogo honesto e transparente. A responsabilidade de construir um movimento que se encaixe nos desafios climáticos, segundo ele, é de todos os setores. “Consenso, para mim, é burrice. Estou falando de consentimento,” finalizou, reforçando a necessidade de uma agenda proativa e coesa.
A COP30 deve contar com representantes de aproximadamente 196 países que discutirão soluções globais para o clima. Neste ano, a conferência será realizada em Belém, no Pará, Brasil, de 10 a 21 de novembro.
Sobre a ABMRA
A Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA) é a única entidade voltada exclusivamente ao marketing e à comunicação do Agro. Há 46 anos, a entidade fortalece o marketing disseminando as boas práticas e contribuindo com todos que participam da cadeia produtiva do setor a se comunicarem melhor. A ABMRA congrega a academia, empresas e indústrias, consultorias, agências de comunicação e propaganda, veículos de mídia e jornalistas.