Tendência

“Amazonizando” a emergência climática: Propostas das redes amazônicas realizadas na COP30 

 *Paulo Ilich Bacca e Luisa Fernanda Bacca  

A Amazônia encontra-se em uma encruzilhada decisiva. Essa não é uma linguagem alarmista, mas uma constatação de fato. A floresta tropical mais biodiversa do planeta já perdeu 16% de sua cobertura vegetal, mais de 23% de sua conectividade ecológica está fragmentada e pelo menos 26% apresentam sinais de degradação. Esses números não são apenas estatísticas ambientais, mas sinais de alerta de que a capacidade da Amazônia de regular os ciclos da água, sustentar fluxos genéticos, apoiar milhões de vidas e estabilizar o clima global está sob ameaça. 

No entanto, a Amazônia não é apenas um bioma vulnerável. É um território vivo, lar de povos indígenas, comunidades afrodescendentes, quilombolas, camponeses e ribeirinhos que sustentam e regeneram a floresta por meio de seus modos de vida. Durante décadas, essas comunidades defenderam a Amazônia enquanto os Estados, em grande parte, a abandonaram. Enfrentar a emergência climática hoje exige mais do que conhecimento científico: requer uma mudança política e cultural, capaz de reconhecer a sabedoria ecológica indígena como essencial para a sobrevivência do planeta e de abrir espaço para soluções genuinamente interculturais. 

Em novembro, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém do Pará, representou uma rara oportunidade política. Pela primeira vez na história, a Amazônia sediou a principal cúpula climática do mundo. Se este momento se tornará um ponto de virada ou mais uma oportunidade perdida dependerá de os Estados, a sociedade civil e as instituições globais agirem com a urgência que o momento exige. 

Com esse propósito, doze redes regionais, representando mais de 450 organizações da sociedade civil e 300 cientistas, uniram-se para formar a Rede Amazônica de Redes. Entre elas estão a Aliança Escute a Amazônia, o Fórum Social Pan-Amazônico (FOSPA), o Painel Científico para a Amazônia e a Aliança das Águas da Amazônia. A convicção que nos une é simples: apenas a ação coletiva pode enfrentar a magnitude da crise. Elaboramos uma agenda de longo prazo para orientar ações conjuntas entre Estados amazônicos, povos indígenas, comunidades locais, movimentos sociais e outros atores da sociedade civil. No centro dessa agenda está a visão de manter a integridade biocultural da Amazônia, entendida como um sistema único e interconectado que transcende fronteiras nacionais. 

Com base na resistência local, em décadas de pesquisa e em visões espirituais centradas na proteção da vida, foi construído o Pacto Climático Pan-Amazônico – uma proposta de ação de curto e longo prazo que reconhece a Amazônia como um sistema vivo no qual múltiplas jurisdições e cosmovisões coexistem. Esse pacto identifica pilares fundamentais para sua proteção e propõe respostas estruturais que foram impulsionadas na COP30. 

O futuro da Amazônia depende de manter suas terras, águas e comunidades conectadas. Florestas, rios e áreas úmidas formam um único sistema vivo, e os povos que cuidam desses territórios desempenham um papel essencial em sua coesão. Quando essas conexões se rompem, a floresta perde sua capacidade de regular o clima, sustentar a biodiversidade e apoiar milhões de vidas. Entre 1985 e 2022, essa conectividade foi gravemente comprometida: a fragmentação dobrou, afetando 193 milhões de hectares, e outros 13% da região já se encontram em estágio avançado de degradação. Estradas, barragens e o desmatamento estão entre as principais causas. Por isso, o primeiro chamado após COP30 é para que os países adotem a conectividade como uma estratégia regional compartilhada, um princípio orientador das políticas ambientais e de desenvolvimento, a fim de evitar uma nova fragmentação do bioma. 

Proteger essa conectividade também significa proteger as pessoas que a defendem. A Amazônia enfrenta ameaças transfronteiriças graves, como o garimpo ilegal, o narcotráfico, o contrabando de madeira e de animais silvestres, os incêndios e a grilagem de terras. Povos indígenas e comunidades locais estão na linha de frente contra essas forças destrutivas, muitas vezes arriscando suas próprias vidas. Em 2023, 196 defensores ambientais foram assassinados, mais da metade deles em países amazônicos. Esses defensores são fundamentais para a resiliência da floresta. Assim, o segundo chamado à COP30 foi reconhecer o papel vital dessas pessoas, garantir sua participação, proteger seus territórios e estabelecer mecanismos concretos de segurança e prevenção para assegurar sua integridade. 

Além da defesa, a Amazônia também precisa de espaço para prosperar. Em toda a região, povos indígenas e comunidades locais desenvolvem modelos sustentáveis de produção que protegem os ecossistemas ao mesmo tempo em que asseguram segurança alimentar e meios de vida dignos. Essas iniciativas oferecem uma visão de desenvolvimento baseada na convivência, e não na exploração. O terceiro chamado é que os Estados fortaleçam estratégias que impulsionem as socio-bioeconomias amazônicas, por meio de políticas públicas, investimentos, infraestrutura sustentável e reconhecimento legal do direito das comunidades de decidirem seus próprios futuros. Apoiar esses modelos permitirá que cresçam e se tornem o alicerce de uma economia amazônica sustentável. 

Como a Amazônia abrange diversos países, a ação deve ser coordenada regionalmente. Florestas e rios não seguem fronteiras nacionais, e o mesmo ocorre com as ameaças que os colocam em risco. As Declarações de Belém (2023) e de Bogotá (2025) já destacam a urgência de agir em conjunto. O quarto chamado é para que os países amazônicos atuem como um bloco unificado, estabelecendo metas climáticas compartilhadas em suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e criando um mecanismo regional para proteger a conectividade ecológica e cultural do bioma por meio de esforços coordenados de mitigação e adaptação. 

Proteger a Amazônia também requer recursos adequados e sistemas financeiros justos para distribuí-los. Na COP29, os países acordaram mobilizar pelo menos 300 bilhões de dólares por ano até 2035 para enfrentar a crise climática. Uma parte justa desses fundos deve ser direcionada à Amazônia. O quinto chamado é garantir uma posição financeira que priorize a região, com regras claras de acesso, transparência, justiça climática e salvaguardas socioambientais. É fundamental que povos indígenas e comunidades locais tenham acesso direto a esses recursos, para liderar as soluções em seus próprios territórios. 

Nada disso será possível sem vontade política. Vivemos uma ruptura profunda em nossa relação com o planeta e com outras formas de vida. Superar essa crise exige transformar a maneira como habitamos e governamos a Amazônia. O conhecimento necessário já existe – tanto na ciência quanto nos saberes tradicionais dos povos que há gerações protegem este território. Ouvi-los e agir coletivamente é nossa responsabilidade. O ponto ecológico de não retorno é também uma fronteira política: cruzá-lo por inação significaria renunciar, como região e como humanidade, a um futuro comum. 

*Paulo Ilich Bacca é vice-diretor do Dejusticia e membro da Rede Amazônica de Redes. 
*Luisa Fernanda Bacca é co-diretora do Instituto Pan-Amazônico (IPA) e membro da Rede Amazônica de Redes. 

Botão Voltar ao topo