El Niño reforça urgência de preparar a próxima safra para eventos climáticos extremos, alerta Coalizão Brasil


Rede defende integração entre crédito, assistência técnica e seguro rural é o caminho para proteger a renda do produtor e reduzir riscos à produção de alimentos


Para um setor que responde por cerca de 23% do PIB brasileiro, os efeitos de um El Niño mais intenso vão muito além das perdas dentro da porteira. Chuvas mais fortes e concentradas em períodos curtos no Sul e Sudeste e episódios recorrentes de escassez hídrica no Norte e Nordeste podem comprometer safras, reduzir a renda dos produtores e desencadear impactos sobre emprego, crédito, seguros, logística e preços dos alimentos.

Nesse cenário, o desafio da agropecuária brasileira não é apenas reagir à próxima quebra de safra, mas preparar os sistemas produtivos para manter produtividade e renda diante de eventos climáticos cada vez mais severos. Isso exige soluções de médio e longo prazos, capazes de combinar adaptação, gestão de riscos e transição para práticas mais resilientes.

Esse é o diagnóstico de Rodrigo Castro, membro do Conselho Estratégico da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Para ele, empresas e governos ainda concentram esforços na reação aos prejuízos, quando a principal missão está em antecipar medidas que permitam ao setor produzir em condições climáticas mais adversas.

“Nenhum segmento da sociedade encarou o problema com a gravidade que ele pede. Precisamos de soluções de médio e longo prazos, porque a temperatura vai continuar subindo e os eventos extremos tendem a se intensificar”, afirma Castro, que também é diretor de País da Fundação Solidaridad.

O alerta é reforçado por relatório recente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que aponta a possibilidade de queda de até 14% na produção global de alimentos até 2050. O documento destaca que cada fração adicional de aumento da temperatura média do planeta tende a reduzir a produtividade das lavouras na maior parte das regiões agrícolas. 

A preparação antecipada pode reduzir significativamente as perdas na lavoura. Embora grandes empresas já incorporem previsões climáticas às suas estratégias de gestão de risco, o desafio nacional é construir um sistema capaz de levar medidas de adaptação a uma escala muito maior, especialmente aos pequenos e médios produtores.  

Gestão integrada de riscos: os impactos para além da lavoura

Os impactos climáticos não se restringem ao interior  das propriedades. A quebra de safra desencadeia um efeito dominó que afeta também os custos da pecuária, a logística de transporte, as carteiras de crédito e a sustentabilidade dos seguros agrícolas. Para evitar colapsos sistêmicos, o planejamento produtivo, informações climáticas confiáveis, assistência técnica, crédito e seguros precisam funcionar de maneira articulada.

“Mais de um terço da riqueza gerada no nosso país vem do campo, envolvendo emprego, valor agregado e toda a cadeia do agro, do produtor ao processamento e ao varejo”, lembra Castro. “Quando um fenômeno climático extremo como o El Niño ocorre, ele atinge toda essa cadeia, aumentando custos e preços e reduzindo a riqueza, o que também impacta a geração e a manutenção de empregos no campo. Essa é uma situação crítica para a economia.”

Nesse contexto, políticas de crédito, assistência técnica e gestão de riscos precisam atuar de forma integrada. Castro ressalta que o desenho atual de proteção ainda patina na execução: “Seguro safra e crédito agrícola, diante de cenários climáticos como esse, se tornam insuficientes”, alerta. 

Outro gargalo, segundo ele, é  a assistência técnica para os pequenos produtores: “Sem orientação contínua no campo, torna-se desafiador para a agricultura familiar converter o crédito contratado em sistemas estruturalmente resilientes a longo prazo.”

Tornar a agropecuária mais resiliente não significa limitar o seu potencial, mas assegurar sua capacidade de manter a produção e a renda mesmo diante de condições climáticas adversas. A resiliência é, portanto, uma agenda de produtividade de longo prazo. Sistemas produtivos diversificados, como os sistemas agroflorestais (SAFs), a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e as práticas regenerativas de manejo de solo, mostram que é plenamente possível manter a saúde do solo e a estabilidade das colheitas.

“A agricultura regenerativa é um caminho sem volta e tende a ganhar escala à medida em que se intensifica a crise climática. O futuro da produção de alimentos passa por sistemas que conciliam resiliência e adaptação climática com a redução de emissões; por isso, precisamos direcionar pesquisa, investimento e crédito para essas práticas. É dessa forma que poderemos fortalecer, ao mesmo tempo, a segurança climática e alimentar”, afirma Rodrigo Castro.

Sobre a Coalizão

Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura é um movimento composto por mais de 400 organizações, entre entidades do agronegócio, empresas, organizações da sociedade civil, setor financeiro e academia. A rede atua por meio de debates, análises de políticas públicas, articulação entre diferentes setores e promoção de iniciativas que contribuam para a conservação ambiental e o desenvolvimento socioeconômico do Brasil.

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