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Estudo no rio Araguaia aponta que desmatamento pode elevar contaminação de mercúrio em peixes

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Amaitê Santos

28 Set 2026AmazôniaBolsa Y. Eva Tan de Jornalismo Ambiental

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  • Pesquisadores identificaram concentrações de mercúrio de até 1.947 µg/kg em peixes do rio Araguaia, no Cerrado, que tem histórico de episódios breves e restritos de mineração de ouro;
  • Eles argumentam que a contaminação no Araguaia pode ser impulsionada pelo desmatamento e pelas queimadas, processos que mobilizam o metal naturalmente presente no solo para os ecossistemas aquáticos;
  • Especialistas alertam para riscos à saúde de populações ribeirinhas, embora a ausência de dados sobre a frequência do consumo de pescado na região dificulte dimensionar o impacto humano exato.

Um estudo publicado na revista Environmental Geochemistry and Health encontrou concentrações elevadas de mercúrio em diferentes espécies de peixes do Lago Puruzinho, em Humaitá (AM), na bacia do rio Madeira, e em lagos de várzea da bacia do rio Araguaia. O trabalho identificou um padrão que chama atenção: sinais de biomagnificação do mercúrio também foram observados nos peixes do Araguaia, onde a mineração de ouro teve episódios historicamente mais breves e espacialmente restritos. 

A comparação sugere que a presença de mercúrio nos peixes pode estar relacionada não apenas à mineração de ouro, mas também a outras alterações ambientais, como o desmatamento e as queimadas. O resultado amplia a discussão sobre as possíveis fontes do contaminante e sobre a exposição de populações que dependem do pescado como alimento. 

A pesquisa comparou peixes de duas bacias hidrográficas com históricos ambientais distintos. De um lado, o rio Madeira, na Amazônia, marcado por décadas de impactos associados ao garimpo, ao desmatamento e à construção de hidrelétricas. Do outro, o rio Araguaia, no Cerrado, onde o avanço da soja, da pecuária, do desmatamento e das queimadas transformou a paisagem. 

Segundo o pesquisador Lucas Cabrera Monteiro, doutorando em Ecologia pela Universidade de Brasília (UnB), um dos autores do estudo, a comparação surgiu a partir de conversas com o professor Wanderley Rodrigues Bastos, da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), que pesquisa a presença de mercúrio na Amazônia. Bastos havia percebido que os níveis encontrados em peixes do Araguaia se aproximavam daqueles registrados no Madeira. 

A diferença entre as duas regiões levantou uma questão para os pesquisadores: como explicar a presença e a movimentação do mercúrio em uma bacia com um histórico de garimpo muito menos intenso?

Para investigar essa questão, a equipe não coletou os peixes diretamente nos rios. O estudo foi realizado em lagos de planície de inundação ligados aos dois sistemas fluviais. Esses ambientes são influenciados pelos ciclos de cheia e seca e podem acumular materiais transportados pela água.

No lago Puruzinho, no Amazonas, as coletas começaram em 2019. A equipe mantém uma parceria com comunidades locais, que auxiliam na captura dos peixes ao longo do ano. A cada três meses, novas amostras eram recolhidas para acompanhar os diferentes ciclos hidrológicos do rio Madeira.

No Araguaia, os pesquisadores precisaram realizar as próprias expedições de campo, já que não havia uma rede de apoio semelhante à existente no Puruzinho.

“Precisávamos acompanhar os diferentes ciclos hidrológicos e obter uma grande variedade de espécies, considerando também os hábitos alimentares de cada uma. O objetivo era construir um banco de dados comparável entre o rio Madeira e o rio Araguaia”, explica Lucas Monteiro.

Pesquisadores durante coleta de peixes na bacia do rio Araguaia. Foto: Acervo pessoal de Lucas Cabrera Monteiro.
Pesquisadores durante coleta de peixes na bacia do rio Araguaia. Foto: Acervo pessoal de Lucas Cabrera Monteiro.

Como o mercúrio chega aos peixes

Parte do mercúrio encontrado nos peixes da Amazônia e do Cerrado não vem diretamente do garimpo. O metal também ocorre naturalmente nos solos dessas regiões e pode ser mobilizado pelo desmatamento, queimadas e erosão. Transportado para rios e lagos, ele passa por transformações químicas que podem gerar o metilmercúrio, forma mais tóxica e facilmente acumulada pelos organismos.

O contaminante então entra na cadeia alimentar. Pequenos organismos aquáticos absorvem o metilmercúrio, que passa para peixes menores e se concentra progressivamente nos níveis mais altos da cadeia alimentar. Por isso, espécies carnívoras e piscívoras tendem a apresentar concentrações maiores que peixes que ocupam posições mais baixas. 

Foi esse padrão que os pesquisadores encontraram ao analisar peixes das bacias dos rios Madeira e Araguaia. As concentrações de mercúrio total variaram de 37 a 2.473 microgramas por quilograma (μg/kg) no Madeira e de 6 a 1.947 μg/kg no Araguaia. Nas duas bacias, peixes planctívoros, carnívoros e piscívoros apresentaram concentrações significativamente maiores que as espécies detritívoras.

Apesar de as maiores concentrações terem sido registradas no Madeira, a biomagnificação — aumento da concentração do contaminante ao longo da cadeia alimentar — foi mais intensa no Araguaia. 

A diferença pode estar na própria estrutura das cadeias alimentares. “O Madeira tem uma das maiores diversidades de peixes do mundo e uma cadeia alimentar muito mais complexa. O Araguaia também é extremamente biodiverso, mas sua cadeia trófica é menos estruturada, o que pode favorecer uma biomagnificação mais intensa do mercúrio”, disse Monteiro em entrevista à Mongabay. 

Para Andrea Viviana Waichman, professora da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e especialista em ecotoxicologia e avaliação de riscos ambientais, a estratégia adotada pelos pesquisadores de usar os peixes para avaliar a presença de mercúrio e estimar a exposição humana é coerente com o papel desses animais nos ambientes aquáticos.

“E por que estudamos os peixes? Porque eles são indicadores da saúde do ambiente. Se o peixe está contaminado, isso significa que o ambiente está contaminado”, disse.

Na bacia do Madeira, as concentrações médias chegaram a 1.033 microgramas de mercúrio por quilograma nos peixes piscívoros e a 976 nos carnívoros, enquanto entre os detritívoros a média foi de 189 microgramas por quilograma. No Araguaia, as médias foram de 744 microgramas por quilograma nos piscívoros e 465 nos carnívoros, contra 42 microgramas por quilograma nos detritívoros. 

Os pesquisadores também estimaram quanto mercúrio poderia chegar ao organismo humano pelo consumo de pescado. Foram considerados três cenários de consumo: 50 gramas de peixe por semana para a população urbana, 100 gramas para a população rural e 300 gramas para comunidades tradicionais, categoria que inclui, entre outros grupos, comunidades ribeirinhas.

No cenário de maior consumo, 230 amostras de peixes do Madeira e 50 do Araguaia resultaram em estimativas de ingestão semanal de mercúrio acima do limite tolerável estabelecido internacionalmente.

“A Amazônia tem uma das populações com maior consumo de peixe do mundo, inclusive superior ao de algumas populações asiáticas. Em função desse alto consumo e da carga de mercúrio presente nesses peixes, identificamos que, sim, existe risco à saúde da população”, afirma Waichman.

O risco é maior para alguns grupos, entre eles gestantes e crianças. Durante a gestação, a exposição ao mercúrio pode afetar o desenvolvimento do feto; na infância, pode atingir o sistema nervoso e comprometer o desenvolvimento cognitivo e motor. 

No Araguaia, porém, ainda falta uma peça importante para dimensionar esse risco: saber quanto peixe as pessoas consomem e, consequentemente, quanto mercúrio podem estar ingerindo. 

“Ainda não sabemos, de fato, quanto mercúrio as pessoas do Araguaia estão acumulando, porque não conhecemos a frequência com que consomem peixe. Esse é o ponto mais preocupante. Na Amazônia já existem estudos sobre a exposição humana; no Araguaia, ainda não”, comenta Monteiro.

Um rio ainda pouco estudado

O rio Araguaia é um dos grandes rios de curso livre do Brasil. Predominantemente localizado no bioma Cerrado, atravessa os estados de Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Pará e drena uma área de aproximadamente 377 mil quilômetros quadrados. No trecho médio, onde estão os lagos estudados pelos pesquisadores, o rio apresenta vazão média anual de cerca de 6.420 metros cúbicos por segundo. Essa região é formada por extensas planícies de inundação e um complexo mosaico de cerca de 300 lagos, além da Ilha do Bananal, considerada a maior ilha fluvial do mundo.

Os lagos analisados fazem parte dessa planície aluvial e são conectados hidrologicamente ao rio Araguaia. A região passa por quatro períodos sazonais — cheia, vazante, seca e enchente —, que alteram as condições dos ambientes de planície de inundação. As campanhas realizadas pelos pesquisadores acompanharam três desses períodos: enchente, cheia e seca.

Patrícia Correia de Araújo, toxicologista e pesquisadora com experiência em mercúrio ambiental, considera relevante o acompanhamento em diferentes momentos do ciclo hidrológico. Ela atuou no Laboratório de Especiação de Mercúrio Ambiental (LEMA), do Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), e não participou do estudo.

Para Patrícia, esse acompanhamento pode formar uma linha de base que permita comparar futuras mudanças na região. Novas campanhas poderiam repetir a coleta das mesmas espécies e incorporar análises de água e sedimentos, criando condições de comparação com períodos anteriores e permitindo observar possíveis alterações associadas a queimadas, secas ou outras mudanças ambientais. 

Pesquisadores durante coleta de peixes na bacia do rio Araguaia. Foto: Acervo pessoal de Lucas Cabrera Monteiro.
Pesquisadores durante coleta de peixes na bacia do rio Araguaia. Foto: Acervo pessoal de Lucas Cabrera Monteiro.

Antes do estudo comparativo com o Madeira, pesquisadores ligados a essa rede já vinham investigando a presença e a circulação do mercúrio no Araguaia. Em texto publicado em 2025, o grupo apontou o desmatamento e as queimadas como fatores capazes de mobilizar o mercúrio naturalmente presente no solo e transportá-lo para ambientes aquáticos. O novo trabalho amplia essa investigação ao comparar diretamente a bioacumulação do metal nos peixes das duas bacias.

“Quando normalizamos os dados pelo tamanho dos peixes, colocamos todos no mesmo páreo e vimos que as concentrações são comparáveis, mesmo sem a presença de garimpo. É aí que entra a questão do desmatamento e do uso do solo”, detalha Lucas Monteiro. “Nossa conclusão é que o uso do solo é um fator bastante importante para a bioacumulação de mercúrio nos peixes e, consequentemente, para as comunidades que dependem deles.” 

Cenário não seria “atípico” 

O estudo encontrou diferenças de exposição de acordo com o tipo de peixe consumido e o perfil das populações analisadas. Na bacia do Araguaia, a ultrapassagem do limite semanal de ingestão de mercúrio foi identificada entre populações ribeirinhas que consumiam espécies piscívoras. Nos cenários de consumo urbano e rural, porém, os pesquisadores não encontraram ultrapassagens significativas em nenhuma das duas bacias. 

A Mongabay procurou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), responsável pela definição e fiscalização dos limites máximos tolerados de contaminantes em alimentos, para saber o que os dados disponíveis permitem afirmar sobre a segurança do pescado.

A agência fez uma ressalva em relação à legislação utilizada pelos pesquisadores. O estudo tomou como referência a RDC nº 42/2013, mas os limites máximos tolerados (LMT) para contaminantes em alimentos atualmente são regulamentados pela Instrução Normativa nº 160/2022, que substituiu a norma anterior. A Anvisa esclareceu que os limites estabelecidos para o mercúrio em peixes permaneceram os mesmos, de modo que a mudança na legislação não altera a análise dos resultados.

A legislação brasileira estabelece limites diferentes para o mercúrio conforme o tipo de peixe. Para espécies que não são predadoras, o limite máximo tolerado é de 500 microgramas de mercúrio por quilograma (µg/kg) de peixe. Para os peixes predadores, o limite é de 1.000 µg/kg. A legislação não diferencia peixes carnívoros e piscívoros: ambos são classificados como predadores para fins de aplicação dos limites de mercúrio. 

“Os níveis de contaminação na bacia do Araguaia, em princípio, não revelam um cenário atípico, pois 96% das amostras encontram-se dentro dos LMT”, informou a Anvisa.

A agência destacou que o mercúrio é um contaminante inevitavelmente presente nos peixes e citou uma avaliação conjunta da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), segundo a qual, de modo geral, os benefícios do consumo de pescado superam os riscos associados à presença de contaminantes.

A recomendação considera os benefícios nutricionais do pescado e, entre outros fatores, orienta a população a diversificar as espécies consumidas e ficar atenta à origem do alimento.

Patrícia, no entanto, questiona a aplicação dessa recomendação. Para ela, dizer que os benefícios do consumo superam os riscos pode desconsiderar situações em que uma pessoa tem acesso recorrente a uma mesma espécie contaminada.

“Se aquele peixe está com uma concentração alta, a pessoa está em nível de exposição alto também. Isso tem uma refletância direta na questão da saúde humana. Essa é a importância básica do estudo dos pescados, principalmente na região Centro-Oeste e Norte, em função da alimentação humana”, afirma.

A pesquisadora também discorda da ideia de que seria preferível consumir um peixe contaminado a não consumir pescado. Para ela, a orientação não leva suficientemente em conta as condições concretas de acesso ao alimento e a frequência de consumo. 

A Anvisa informou à Mongabay que está em curso uma revisão dos limites brasileiros para mercúrio em peixes. A proposta é que os valores atualmente estabelecidos para mercúrio total passem a ser definidos especificamente para o metilmercúrio (MeHg). Segundo a agência, a revisão é conduzida em conjunto com os demais países do Mercosul e busca alinhar os padrões às recomendações mais recentes da FAO e da OMS. 

As lacunas apontadas pela Anvisa coincidem com uma das principais questões levantadas por Lucas Monteiro: saber quanto mercúrio chega às pessoas exige olhar para além do peixe analisado em laboratório.

“O mais importante é avaliar as populações humanas. Não apenas medir o mercúrio, mas entender o modo de vida dessas pessoas: quanto peixe elas consomem, com que frequência, quantas vezes por semana, quais espécies preferem”, afirma o pesquisador.

Citação:

Monteiro, L. C., Vieira, L. C. G., Bernardi, J. V. E., Almeida, R. de, Cabral, C. da S., Teresa, F. B., Nabout, J. C., & Bastos, W. R. (2026). Contrasting anthropogenic drivers of mercury bioaccumulation in fish and associated dietary exposure risks in Amazon and Cerrado floodplain lakes. Environmental Geochemistry and Health, 48(4), Artigo 458. https://doi.org/10.1007/s10653-026-03335-0

Imagem do banner: Pesquisadores coletam peixes para análise em lago na  bacia do rio Araguaia, parte da Expedição Araguaia Vivo. Crédito: Igor Rodrigues dos Santos (Lapig/UFG) 

Créditos

Samanta do CarmoFellowship Editor

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