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Lula reeleito: prognóstico econômico 2027–2030

Com a reeleição de Lula, o Brasil mantém o ajuste fiscal gradual dos últimos quatro anos, agora com mais gastos contratados e um Congresso menos favorável. A política econômica será previsível, mas a dívida deve subir de 83% para perto de 95% do PIB até 2030, e a Selic pode nem chegar a 11% no mandato. Por que a vitória preocupa O que continua Desde 2023, o governo conduziu o ajuste dentro do arcabouço fiscal, de forma gradual e apoiado sobretudo em aumento de receita. O déficit caiu, mas não o bastante para conter a dívida: a dívida bruta passou de 71,7% do PIB no fim de 2022 para 82,9% em agosto de 2026. O programa do quarto mandato promete repetir a fórmula. O tamanho do desafio O juro real está perto de 9,5% ao ano, e os juros da dívida já consomem 8,9% do PIB em 12 meses. As despesas obrigatórias são 92% do Orçamento; as discricionárias (executivo mais emendas) somam apenas R$ 267 bi em 2027. Para estabilizar a dívida – já em um nível alto – seria preciso um superávit primário acima de 2% do PIB nos próximos anos. Hoje há déficit. E o governo chega a 2027 com R$ 70 a 90 bi de novos gastos e renúncias prometidos na campanha. Governabilidade mais difícil O Congresso eleito é mais à direita que o atual. A base de esquerda soma 124 deputados (federação PT-PCdoB-PV com 88, PSB com 15, PSOL-Rede com 15, PDT com 6), contra 121 só do PL, a maior bancada desde 1988. Qualquer medida de receita ou de controle de gasto dependerá do centrão, que cobra em emendas e cargos. O plano. A campanha propõe:manter o arcabouço fiscal e sair de déficit de 0,5% do PIB em 2026 para superávit de 1,5% em 2030;novos gatilhos para conter despesas obrigatórias, sem desindexar benefícios do salário mínimo; mais receita: revisão de benefícios tributários, tributação de alta renda e contribuição de empresas com muitos contratados como PJ; Novo PAC, Nova Indústria Brasil e crédito público ampliado. Nossa leitura: como acreditar em um ajuste fiscal? É a pergunta que o mercado vai fazer a partir de segunda. A trajetória prometida exige melhorar o primário em 0,5 ponto do PIB por ano, mas o governo começa o mandato tendo de acomodar as próprias promessas, sem mexer na indexação e com menos apoio no Congresso. Esperamos que 2027 se pareça com o que teríamos em qualquer resultado — Selic perto de 12% no fim do ano, porque o BC responde à inflação corrente, que esperamos que fique acima de 5,0% —, e que a diferença apareça de 2028 em diante: câmbio mais fraco, inflação mais persistente e cortes de juros menores. A segunda-feira: devolução dos ganhos desde setembro A segunda-feira deve devolver grande parte dos ganhos vistos desde setembro nos mercados domésticos de ações, câmbio e juros, que vinham embutindo uma vitória de Flávio. Só depois do 1º turno, o dólar caiu mais de 4%, os juros futuros recuaram mais de 100 pontos-base e o Ibovespa superou 200 mil pontos pela primeira vez, em alta de mais de 7%. Ativo Reação esperada em 26/10 Leitura Dólar R$ 5,50 a 5,70 Volta à faixa em que o mercado projetava o câmbio para uma vitória de Lula antes do 1º turno Juros futuros longo salta de 100 a 150 pb Prêmio fiscal volta à curva; inclinação aumenta Ibovespaqueda de 6% a 10%Bancos, varejo, construção e empresas menores lideram a quedaEstatais (Petrobras, BB)queda maior que a do índice Programa prevê Petrobras de volta à distribuição e mais refino O tamanho da correção depende das primeiras falas. Um discurso de vitória que reafirme a meta fiscal de 2027 e confirme a equipe econômica limita o estrago. Promessas novas de gasto ou críticas ao Banco Central o ampliam. Sem transição: o governo herda a própria conta Não há transição de poder, mas o governo precisará lidar já em novembro com os R$ 70 a 90 bi de novos gastos e renúncias prometidos para 2027, num Orçamento que o Congresso vota até dezembro. Equipe Durigan (Fazenda) e Moretti (Planejamento) devem ficar, o que dá continuidade, mas não muda a percepção de risco. A tendência é abrir mais espaço na Esplanada a partidos de centro para compensar o Congresso mais à direita. Para a economia, o sinal relevante é se a Fazenda ganha ou perde poder diante da Casa Civil e dos ministérios que gastam. A meta de 2027 O projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027, ainda em votação, fixa meta de superávit primário de 0,5% do PIB (R$ 73,2 bi) para o governo central — Tesouro, Previdência e Banco Central. A regra admite tolerância de 0,25 ponto para baixo, ou seja, a meta é cumprida com superávit de 0,25% do PIB. E a conta exclui cerca de R$ 65 bi de despesas, como precatórios e parte dos gastos com saúde, educação e defesa. Sem essas exclusões, o próprio Orçamento enviado em agosto previa superávit efetivo de só R$ 18,6 bi. Pouca margem de manobra. Desde então, a conta piorou. A perda de receitas, como a proibição das bets e o perdão de dívidas do MEI, a possível manutenção dos subsídios aos combustíveis e as outras medidas anunciadas recentemente pressionam fortemente o Orçamento. Do lado da despesa, o reajuste do Bolsa Família (R$ 22,7 bi) e programas como “Pé-de-Meia Universitário” e “Desenrola 3.0” ocupam espaço dentro do limite de gastos. O programa “Tarifa Zero” fica fora dessa conta: a PEC a financia com parte das emendas impositivas, cerca de R$ 11 a 12 bi. O que esperar em novembro e dezembro O caminho mais provável é manter a meta no papel e fechá-la com três recursos: Receitas novas: revisão de benefícios tributários, contribuição de empresas com muitos contratados como PJ e Imposto Seletivo. Corte de emendas, já indicado como fonte da tarifa zero. Contingenciamento ao longo de 2027, que Moretti admite “se necessário”. O Planejamento fala em só R$ 20 bi de remanejamento. Cobrir o resto exigirá receita que o Congresso pode não aprovar, ou novas exceções à meta — e é aí que mora o principal risco fiscal do primeiro ano. Estratégia fiscal: receita primeiro, gasto devagar Um ajuste fiscal de Lula será gradual e apoiado na receita. A promessa de campanha é sair de déficit de 0,5% do PIB em 2026 para superávit de 1,5% em 2030, um ajuste de cerca de 2 pontos que Durigan compara ao do mandato atual. Não esperamos que essa trajetória se cumpra. Alavanca O que deve vir Efeito estimado Quando Regra fiscal Arcabouço mantido; gatilhos novos sobre despesa obrigatória, discutidos por Durigan Gatilhos já aprovados rendem menos de R$ 20 bi em 2027 (pessoal e vinculações) e crescem devagar 2027 em diante Receita Revisão de benefícios tributários, contribuição sobre PJ, Imposto Seletivo, tributação de alta renda Principal fonte do ajuste; depende de um Congresso menos favorável e eleva a carga tributária2027–2028Despesa obrigatória Corte de “privilégios” (militares, elite do funcionalismo); sem desindexar o salário mínimo Pequeno; Previdência e BPC seguem crescendo em termos reais Ao longo do mandato Emendas”Enfrentar” o sistema de emendas (R$ 50 bi em 2026) Depende do Congresso; parte vira fonte da tarifa zero2027Crédito públicoBNDES, Pronampe, Acredita e Desenrola ampliadosReduz a potência da Selic e prolonga o ciclo de juros altos Contínuo Velocidade. Em um cenário positivo, estimamos melhora de 0,3 a 0,4 ponto do PIB por ano, já abaixo dos 0,5 pontos da trajetória oficial. A tendência é que seja menor. O obstáculo é a indexação: cerca de 70% dos benefícios do INSS são de um salário mínimo (40% do total pago), e o mínimo segue com ganho real de até 2,5% ao ano. Sem mexer nisso, o ajuste depende de arrecadação nova a cada ano, aprovada por um Congresso em que o governo não tem maioria. O laço com os juros. Com dívida de 83% do PIB, cada ponto a menos de juro real reduz em cerca de 0,8 ponto do PIB o superávit necessário. Um ajuste lento mantém o prêmio de risco alto, o juro real alto e, portanto, a exigência de superávit alta. Moretti chama a queda dos juros de “o grande legado” do próximo mandato. No ritmo que projetamos, ela fica aquém: a Selic pode nem chegar a 11% até 2030.Projeções 2026–2030O ano de 2027 parte dos mesmos parâmetros que teríamos com qualquer vencedor; a diferença aparece de 2028 em diante, quando o ajuste lento cobra seu preço em câmbio, inflação e juros. A dívida sobe cerca de 3 pontos do PIB por ano até 2028 e mais de 2 pontos depois, sem sinal de estabilização no mandato. Variável (estimativa própria)20262027202820292030 Selic, fim de ano (%)13,2512,0011,7511,5011,25IPCA (%)5,055,405,205,005,00PIB (%)1,801,201,501,501,50 Câmbio, fim de ano (reais por dólar)5,505,856,206,506,85Resultado primário (% do PIB)−0,35+0,00−0,10−0,20−0,30Dívida bruta do governo geral (% do PIB)83,686,689,992,494,6 Como ler. Em 2027, a Selic cai pouco porque a inflação corrente segue acima de 5%, com o fim da escala 6×1 pesando sobre serviços. A inflação também depende da decisão sobre a subvenção aos combustíveis e a política de preços da Petrobras: se a subvenção for retirada e os preços passarem a acompanhar o mercado externo, o IPCA de 2027 pode subir mais de 1 ponto percentual. A partir de 2028, o prêmio de risco mantém o câmbio em depreciação, a inflação não converge para a meta e o Banco Central corta a Selic em passos pequenos. O crescimento fica perto de 1,5% ao ano, sustentado por transferências, salário mínimo e Novo PAC, mas travado pelo juro real alto e pelo investimento privado fraco. Riscos e sinais a acompanhar O cenário central supõe um governo que cumpre a meta com exceções, mas não a abandona. Os riscos são assimétricos para os ativos locais: há pouco espaço para surpresas positivas, e o desempenho pode ser bem negativo se o compromisso fiscal enfraquecer. Para cima Gatilhos sobre despesa obrigatória aprovados no 1º semestre de 2027, com valor em reais. Corte efetivo de emendas e revisão de programas recém-anunciados, aliviando o limite de gastos. Dólar fraco no mundo e commodities altas, que ajudam câmbio e arrecadação. Para baixo Meta de 2027 reduzida ou novas exceções ao primário para acomodar as promessas: dólar acima de R$ 6 já em 2027 e Selic de volta a 14%. Derrotas no Congresso em medidas de receita, deixando o ajuste sem fonte. Uso da Petrobras na distribuição de combustíveis para segurar preços, ou retirada abrupta da subvenção, com mais de 1 ponto no IPCA de 2027.Atrito com o Banco Central se a Selic não cair o esperado. Calendário dos sinais Sinal Quando O que olhar Discurso de vitória e primeira entrevista de Durigan25 e 26/10 Compromisso explícito com a meta de 2027 sem exceções novas Equipe do quarto mandato novembro Permanência de Durigan e Moretti; peso do centrão na Esplanada Relatório do Orçamento de 2027novembro e dezembro Como entram os R$ 70 a 90 bi: corte, receita nova ou exceção Copom dezembro de 2026 e 1º trimestre de 2027Ritmo dos cortes diante do câmbio mais fraco Gatilhos de despesa obrigatória1º semestre de 2027 Texto enviado ao Congresso e economia estimada em reais |