Volatilidade cambial e fundamentos baixistas pressionam o mercado de café, aponta Hedgepoint
Reeleição de Lula repercute no câmbio e estimula vendas de café no Brasil; clima favorável e maior oferta mantêm pressão sobre arábica e robusta
São Paulo, 5 de novembro de 2026 – A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições brasileiras, em 25 de outubro, contrariou as expectativas do mercado e provocou forte turbulência nos mercados de commodities, segundo relatório da Hedgepoint Global Markets de 30 de outubro.
No dia 26, o real caiu mais de 11%, em uma das maiores quedas intradiárias já registradas, enquanto o Ibovespa encerrou o pregão com baixa de quase 14%, o maior recuo diário desde 2020, à medida que investidores reavaliavam as perspectivas fiscais.
No mercado de café, o movimento pressionou os preços futuros do arábica e do robusta, mas também estimulou novas vendas no Brasil. No primeiro contrato de arábica, o preço em dólares por saca de 60 kg caiu 2,1% em 26 de outubro, na comparação com o dia 23, enquanto o valor convertido em reais subiu 6,5%. Nesse contrato e período, o efeito cambial mais do que compensou a queda dos preços em dólares. Muitos produtores aproveitaram o câmbio mais favorável, o que aumentou as vendas naquele período e melhorou a perspectiva de oferta.
“A desvalorização do real compensou parte da queda dos preços em dólares, mas os fundamentos mais amplos do café seguem baixistas e podem continuar pressionando as cotações”, afirma Laleska Moda, Analista de Inteligência de Mercado da Hedgepoint Global Markets.
Real e Índice Dólar
Primeiro contrato de arábica em NY – USD/saca e BRL/saca
Após o choque inicial, o real permaneceu altamente volátil na semana de 26 a 30 de outubro, com participantes do mercado aguardando maior clareza sobre a relação entre Brasil e Estados Unidos e sobre as políticas do novo governo, especialmente na frente fiscal. O cenário global também esteve em foco. Nos Estados Unidos, o Fed manteve os juros em 3,75%-4,00% na quarta-feira (28), contrariando as expectativas de alta, após o PIB do terceiro trimestre crescer 3,4% (ante 3,2% esperado pelo mercado) e a inflação avançar 0,5% em setembro. Agora, os mercados esperam um aumento dos juros na reunião de dezembro, após as eleições de meio de mandato. Na Europa, o Banco Central Europeu manteve a taxa de depósito em 2,5% na quinta-feira (29), mas a persistência da crise energética e o aperto das condições financeiras podem levar a juros mais altos adiante.
A turbulência das ações de tecnologia dos Estados Unidos e da China, embora sem relação direta com as commodities, é relevante para o café por meio das condições financeiras e do apetite por risco. A crescente demanda por crédito dos hiperescaladores (empresas que operam infraestrutura de nuvem em grande escala) pode manter o financiamento restrito, aumentando a pressão sobre um setor cafeeiro que já enfrenta custos financeiros mais elevados, e um ambiente de aversão ao risco nas bolsas também pode reduzir o interesse dos investidores por exposição em commodities.
Clima favorável sustenta perspectiva de safra elevada no Brasil
Além do cenário macroeconômico, o mercado de café também é pressionado por seus próprios fundamentos, segundo a Hedgepoint. O clima no Brasil permanece bastante favorável ao desenvolvimento da safra 2027/28, tanto nas áreas de arábica quanto de conilon, com chuvas acima da média registradas em setembro e outubro e temperaturas amenas, que favoreceram o pegamento das floradas.
Diante da expansão de área observada nos últimos três anos, a produção deve permanecer elevada no próximo ciclo, caso o clima continue colaborando. Embora a produção de arábica deva recuar devido ao ciclo bienal, a de conilon deve aumentar em 2027/28. O El Niño segue como risco, especialmente para o primeiro trimestre de 2027, mas, por enquanto, as expectativas são positivas.
“Se o clima continuar colaborando, a expansão de área dos últimos três anos deve manter a produção elevada em 2027/28, mesmo com a queda esperada do arábica pelo ciclo bienal”, diz Laleska Moda.
Exportações aceleram e oferta de outras origens deve aumentar
Além da próxima safra, a expectativa é que as exportações de 2026/27 ganhem ritmo. Os números de agosto e setembro já foram mais elevados, e os dados parciais do Cecafé disponíveis na data do relatório indicavam que as exportações de outubro poderiam avançar ainda mais: até 30 de outubro, o Conselho havia emitido certificados para mais de 5 milhões de sacas, das quais 4,9 milhões já estavam embarcadas. O café brasileiro também vem chegando aos armazéns da ICE, com mais de 43 mil sacas de arábica aguardando classificação. No robusta, os estoques cresceram recentemente com o envio de mais café pelo Brasil e pela Indonésia.
No cenário global, o clima seco na Indonésia, associado ao El Niño, deve afetar a safra 2027/28 do país. Porém outras origens já estão em período de colheita , com mais café provavelmente chegando ao mercado a partir de dezembro e contribuindo para a atual tendência baixista. Embora não seja possível descartar impactos do El Niño sobre a oferta global em 2027/28, a expectativa de curto prazo é de disponibilidade mais confortável, o que deve manter a pressão sobre os preços, especialmente nos contratos de arábica de dezembro e de robusta de janeiro.
“O El Niño segue como um risco importante para a oferta global em 2027/28, mas, no curto prazo, a perspectiva é de oferta mais confortável, o que mantém a pressão baixista sobre arábica e robusta”, conclui Laleska Moda.
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Sobre a Hedgepoint Global Markets
A Hedgepoint Global Markets é uma empresa especializada em gestão de risco, inteligência de mercado, e execução de hedge para a cadeia de valor global de commodities, com larga experiência nos mercados agrícolas e de energia. Está presente em cinco continentes e oferece aos clientes produtos de hedge baseados em tecnologia e inovação, mantendo o cliente como ponto central de todos os processos. A companhia trabalha com mais de 60 commodities e mais de 450 produtos de hedge em sua plataforma. Visite nosso site.