Brasil paga mais caro para transportar grãos e enfrenta déficit de armazenagem, alertam especialistas no GAFFFF

Brasil paga mais caro para transportar grãos e enfrenta déficit de armazenagem, alertam especialistas no GAFFFF
Custo de transporte pode ser até 48% maior que nos EUA, enquanto Mato Grosso armazena apenas metade da produção
São Paulo, SP, outubro de 2026 – O Brasil enfrenta dois gargalos para acompanhar o avanço da produção agrícola: o alto custo de transporte e a falta de capacidade de armazenagem. Dependendo da rota, o custo de transportar grãos no país pode chegar a ser 48% maior que nos Estados Unidos. Já a capacidade brasileira de armazenagem equivale a apenas 62% de toda a produção de grãos. Os números foram apresentados nesta quinta-feira, 2, durante o painel “Logística e Infraestrutura: O Futuro do Escoamento da Produção”, no GAFFFF, em São Paulo.
“Quando a gente compara o Brasil com os Estados Unidos e a Argentina, observa que o nosso custo de transporte, a depender da rota, se ela for predominantemente rodoviária, chega a ser 48% maior que o dos Estados Unidos”, afirma Elisangela Pereira Lopes, assessora técnica da Comissão Nacional de Logística e Infraestrutura da CNA e moderadora do painel.
A diferença está relacionada, entre outros fatores, à matriz de transporte brasileira. “Os Estados Unidos são um país de extensão territorial similar ao Brasil, mas utilizam bem a sua hidrovia”, destaca Elisangela.
O problema se agrava nas novas fronteiras agrícolas. Conforme a especialista,, Mato Grosso, maior produtor de grãos do país, consegue armazenar apenas metade do que produz. “O Mato Grosso é o maior produtor de grãos do Brasil, mas é onde tem o maior déficit também. Ele consegue guardar metade do que produz.”
A infraestrutura rodoviária também foi tema central da discussão. Para Cidinho Santos, ex-senador e presidente do Conselho Administrativo da Nova Rota do Oeste, a BR-163 é estratégica para o escoamento da produção mato-grossense. “A BR-163 é a estrada, a rodovia que 80% da produção do estado transita”, diz.
Responsável pela concessão da rodovia, a Nova Rota do Oeste já duplicou cerca de 300 dos 450 quilômetros previstos no trecho sob concessão. Conforme Cidinho, a previsão é concluir até o fim de 2026 a duplicação do trecho entre o Posto Fiscal de Diamantino e Sinop. “Isso é uma evolução muito grande, não só para as pessoas que transitam na rodovia, mas para o escoamento da produção”, defende.
Para Fernando Dihel, diretor executivo da Ultracargo, a solução passa por uma combinação maior entre os diferentes modais. Ele destaca que Mato Grosso, principal polo produtor de commodities do país, está a distâncias de até 2 mil quilômetros dos portos. “A matriz de transporte no Brasil hoje está muito em cima do caminhão”, pontua. Segundo Dihel, o transporte rodoviário é adequado para distâncias curtas e médias, mas a extensão territorial brasileira exige alternativas mais eficientes para longos percursos.
A armazenagem dentro das propriedades também deve ganhar espaço nos próximos anos. Bernardo Nogueira, CEO da Kepler Weber, avalia que a redução do ritmo de expansão de novas áreas agrícolas permitirá ao produtor direcionar mais recursos para diminuir riscos e melhorar sua infraestrutura. “O caixa que vai ser gerado nesses próximos anos, nos próximos dez anos, vai ser investido em reduzir riscos. Ele vai investir em irrigação, em caminhões próprios, em armazenagem. Então, a velocidade de investimento em armazenagem na fazenda vai acelerar muitíssimo nesta próxima década”, acredita.
Nogueira também vê uma nova etapa para o agronegócio brasileiro, com maior agregação de valor à produção. “O Brasil foi essa pujança nos últimos 30 anos em produção, e vai acelerar a pujança na industrialização do agronegócio”, destaca, citando o avanço do etanol de milho e do biodiesel.
Para o executivo, o ambiente de investimentos depende principalmente de previsibilidade. “Não precisamos de subsídio de nada, a gente só precisa ter previsibilidade para poder fazer bons investimentos”, ressalta.
Sobre o evento
Organizado pela DATAGRO, o GAFFFF reúne conteúdo, negócios, gastronomia e entretenimento com o objetivo de aproximar o agronegócio da população urbana e discutir temas estratégicos para o setor. A edição deste ano contará com 230 empresas apoiadoras e expositoras. Terá cerca de 330 palestrantes de mais de 20 países. Também há um espaço dedicado a esportes equestres e rodeio, além da Arena Fogo, com restaurantes com culinária ligada ao campo e produtores artesanais, e shows de Edson & Hudson, Rionegro & Solimões e Fiduma & Jeca. Outra novidade será a elaboração do Consenso do Agronegócio, documento pós-evento que reunirá as principais conclusões dos debates.