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História do tomate industrial em Goiás

Eurico Carletti Mendes Pereira

A história do tomate industrial em Goiás está completamente ligada à história da evolução da atividade da Arisco em Goiânia.

A Arisco Industrial S/A, fundada por um empresário goiano chamado João Alves de Queiros, que aproveitando seus negócios de venda de alho e sal, decidiu produzir e comercializar o tempero Arisco Alho e Sal. Foi um sucesso, distribuição pelo País inteiro. Isso abriu a oportunidade de fabricação e venda de outros produtos, e dentre eles, os atomatados.

Com a aproximação de um empresário de grande conhecimento no ramo de conservas, Carmelo Paoletti, verdadeiro responsável pelo surgimento do tomate industrial em Goiás, juntando-se à Arisco e trazendo sua experiência vivida na Cia. Industrial e Mercantil Paoletti, fundada por ele em 1954 e vendida, em 1979, ao Grupo Fenícia. Carmelo trouxe para a Arisco a marca de atomatados Suprema que produzia em fábrica arrendada por ele em Santa Adélia (SP); passou a ser o diretor Industrial da Arisco.

A nova fábrica, inaugurada em 1984, com um concentrador de grande porte, passou a produzir os primeiros atomatados em Goiás, com a marca Suprema e com o lançamento da marca Arisco. Nessa época, como a produção era maior que a demanda, produzia polpa de tomate, sob contrato e supervisão da CICA, detentora de 70% do mercado consumidor na época. Essa parceria durou dois anos, porque o mercado dos atomatados da Arisco crescia e absorvia a produção.

 GRANDE AMIGO

A experiência mostra que não dá certo misturar amizade e negócio, nesse caso houve uma grande exceção.

Conheci, em 1987, o proprietário da Agriter, José Paulo Boni, interessado em plantar tomate para a CICA, pois tinha grande área de plantio de grãos no verão, 15.000 hectares de soja e milho grão, e ficava com o maquinário ocioso durante todo o período de inverno, além de ter suas receitas significativamente diminuídas nesse período. Decidimos plantar um pivô central em Luziânia (GO), para entrega em Monte Alto/SP, distante 800 km e com custo de frete equivalente à metade do valor do tomate; ao contrário do que poderia acontecer, o resultado não foi desanimador, pois a produtividade obtida foi muito alta. Nos anos seguintes outros pivôs centrais foram plantados e suas áreas de irrigação muito ampliadas, sempre com plantios de tomate contratados pela CICA.

Com o valor gasto no frete daria para, em poucos anos, amortizar a construção de uma fábrica de polpa de tomate; foi o que aconteceu, inaugurou a Goiás Verde Alimentos, em Luziânia, em 1990. A produção da polpa de tomate era entregue à CICA, que, sob contrato, absorvia toda a sua produção; até técnicos de qualidade vinham de Jundiaí (SP) para auxiliar na produção e orientar o carregamento e o transporte da polpa. Anos depois, com a fábrica parada, pois a produção de polpa de tomate havia deixado de ser um bom negócio, com gastos ao longo de um ano para comercialização da produção somente no ano seguinte.

Em 1995 a Goiás Verde voltou a produzir polpa de tomate sob contrato, com toda a produção entregue a Arisco, que mantinha pessoal técnico de qualidade na fábrica de Luziânia, auxiliando a produção e o transporte da polpa para Goiânia.

Esse acordo durou até que a Brasfrigo arrendou a fábrica e transferiu suas atividades de Uberaba (MG) para Luziânia. O arrendamento foi encerrado em 2003, com a inauguração pela Brasfrigo de fábrica própria em Luziânia, posteriormente adquirida pela Goiás Verde, poucos meses antes de seu repentino desaparecimento.

Sua irmã Luciane, lamentando sua morte, aos 53 anos de idade, disse: “Paulo, você tinha que fazer tudo muito depressa, porque sabia que seu tempo era curto”.

TODOS NO CENTRO-OESTE

A CICA instalou sua fábrica em Patos de Minas (MG), em 1991, aproveitando os resultados positivos obtidos nos plantios de tomate do Centro-Oeste, além da ótima infra-estrutura da região, com muita área irrigada por Pivot Central, clima seco no inverno, sem geada e solo muito fértil; era a melhor opção, pois os produtores eram bem capitalizados e abertos a inovações técnicas, e rapidamente obtiveram elevadas produtividades de tomate industrial, ao nível de 80 toneladas/hectare.

Auxiliou na evolução técnica do plantio na região a transferência da pesquisa agrícola da CICA de Narandiba (SP) para Patos de Minas, em consonância com o fechamento das fábricas de Presidente Prudente (SP) e Monte Alto (SP), regiões claramente decadentes na produção de tomate industrial. Importantes mudanças tecnológicas foram feitas após testes de campo realizados no Pivot Central e na área de irrigação por gotejamento instalada na Estação Experimental. Também foi consolidada a produção de mudas de tomate para transplante, que, mais tarde, viabilizaria o uso de sementes híbridas, nos plantios para colheita mecanizada.

A experiência de sucesso da Agriter, com elevada produtividade de tomate e a excelente qualidade da polpa produzida na Goiás Verde, chamou a atenção de outros processadores de derivados de tomate.

A Coniexprex Industrial inaugurou sua fábrica em Nerópolis (GO), em 1990, vindo de Jundiaí/SP, com a marca “Quero”, em busca dos ótimos resultados obtidos no Centro- Oeste, na produção do tomate industrial.

Uma grande concentração de pivôs centrais favoreceu a instalação de uma fábrica processadora de tomate em Morrinhos, em 1993, a Conservas Olé, pertencente ás Indústrias Aurichio S/A, que com bons produtores obtinha elevadas produtividades, atingindo 100 toneladas/hectare, e estimulando investimentos no setor.

Chegou o momento da Arisco, já grande, em 1995, com produção de 85 mil toneladas/ ano, 50% do tomate necessário para o seu consumo, complementado pelas importações, tinha que modificar seu modelo de gestão no campo, junto aos produtores, que não tinham boa relação de trabalho com a indústria. Os acordos firmados com os produtores, não eram respeitados; muitas áreas contratadas não eram recebidas pela Indústria e muitos produtores desviavam parte da produção para o mercado fresco.

 O primeiro passo foi um contrato com cláusulas de penalização bem definidas, que exigia o respeito aos seus termos por ambas as partes; foi fundamental o fornecimento dos insumos: fertilizantes e defensivos, que regulava sua utilização no campo e possibilitava elevada produção. A surpresa veio na observação do principal executivo da Arisco,. Carmello Pauletti, “nós vamos ter que cumprir tudo o que está escrito nesse contrato?”.

Houve muita inovação tecnológica na medida em que a confiança dos produtores na Indústria ia crescendo: troca das sementes de má qualidade por materiais mais produtivos e de melhor qualidade (Hy Peel 108, IPA 5, AG 45, etc.), respeito à rotação de culturas, principalmente, aproveitando o plantio de milho doce, cuja área aumentava com alternância ao tomate a cada ano. Melhores produtores ampliavam suas áreas irrigadas com a instalação de novos pivôs centrais, os não confiáveis eram eliminados, o novo modelo dobrava a área plantada, e reduzia pela metade a quantidade de produtores contratados.

Trabalhos de pesquisa agrícola feitos por Vanderlei Barbosa a partir de 1998 em Goiânia, com a seleção de materiais genéticos de maior potencial produtivo possibilitou aumento na produtividade. Os híbridos, trazidos pelas empresas produtoras de sementes, como Heinz, Peto Seed, Top Seed, Asgrow, etc. iam tomando seu espaço, e abrindo possibilidade de colheita mecanizada, com a maturação concentrada dos frutos. Avançavam as técnicas de fertilização e de tratamento fitossanitário, já que, com o fornecimento dos insumos feito pela Indústria, sua utilização passou a ser recomendada e fiscalizada pelos técnicos de campo, que aproveitavam os bons resultados obtidos nos experimentos e os levavam aos produtores.

A Arisco na intenção de acelerar o uso de sementes híbridas trouxe em 1998 de Glicério/SP as primeiras mudas de tomate, iniciando o uso dessa tecnologia no Centro-Oeste, e, no ano seguinte, financiou a instalação, em Hidrolândia (GO), da ENRA dos sócios Nilson Pancoti e Eneas Galvão e, em Rio Verde (GO), a Vivatti do Gelson Goulart. Logo mais um importante viveiro da mudas foi instalado em Vicentinópolis, do Francisco Canello Neto, e com a contratação de toda a produção desses viveiros, rapidamente tinha 100% das áreas transplantadas. 

 Esse foi um passo fundamental para a vinda das primeiras colheitadeiras de tomate, que, importadas da Itália, foram entregues a quatro produtores que assumiram o desafio da inovação: Carlos Virgílio em Paraúna (GO), Jaime Corso em Vianópolis (GO), Hélio Maróstica em Morrinhos (GO) e Antonio Haddad em Rio Verde; foi frustrante no primeiro ano já que o preparo do solo de plantio não tinha a qualidade necessária ao uso das colheitadeiras, e o tomate não concentrava suficientemente a maturação. No entanto nos anos seguinte, resolvidas as deficiências, mais de vinte colheitadeiras entraram em operação em Goiás e Minas Gerais, vindas da Itália, da marca Sandey, importadas através do produtor Antonio Haddad, seu representante comercial.

Nessa altura havia a necessidade de reduzir o uso de insumos, que encarecia os custos. A alternativa analisada foi irrigação por gotejamento, diminuindo o uso de defensivos, e aumentando o residual das pulverizações, não lavados pelos Pivôs Centrais, alem de melhor a absorção de nutrientes através da fértil-irrigação.  Financiamentos de longo prazo com pagamento em tomate, durante cinco safras, foi o modelo adotado, e a empresa fornecedora dos equipamentos foi a Netafin, de Israel; não funcionou, porque não havia mão de obra no campo para operar satisfatoriamente os equipamentos instalados, e a empresa contratada não tinha o suporte técnico necessário; demoraram anos para que alguns dos gotejamentos entrassem em operação com eficiência.

Com expectativa de colheita de 80 toneladas/hectare de tomate foi fácil para a Arisco aumentar a área contratada, atingindo 350 mil toneladas na safra de 1999, nada menos que quatro vezes o volume de cinco anos antes.  Estava estabelecida a verdadeira parceria entre produtor e Indústria, onde os insumos eram parte da Indústria e os serviços compromisso do produtor, que deveria ter o maquinário agrícola, os pulverizadores e o equipamento de irrigação, e a Indústria teria o maquinário industrial para absorver a safra, alem de gerenciar a colheita e o transporte, para trazer o tomate para a fábrica. A compra da Arisco pela Unilever, em 2000, acabou com o encanto da parceria, retrocedeu no tempo, voltou o contrato: melhor para um e pior para o outro; e mais grave, desequilibrou o mercado, com o fechamento das fábricas de Patos de Minas e de Rio Verde.

E mesmo com a instalação de diversas Indústrias para a produção de polpa de tomate, como MS Alimentos em Nova Gloria (GO), em 1990, Best Pulp em Januária/MG, em 1999, Cisal Alimentos em Morrinhos, em 2000, GOIALLI-Goiás Alimentos em Goianésia, em 2002, Produtos Dez em Morrinhos, em 2002, L F de Castro em Vianópolis (GO), em 2002, Brasfrigo em Luziânia, em 2003, além do aumento na capacidade de processamento de tomate das grandes Indústrias, continuou a haver o desequilíbrio na oferta de áreas de plantio em relação à disponibilidade, e isso prejudicou os resultados de todos.

 DECADÊNCIA DO SEGUIMENTO

A concentração da produção em Goiânia fez a Unilever, que havia adquirido a CICA e a Arisco, aumentar muito o volume de tomate a ser processado na reformada fábrica, forçando o plantio em cinco meses, e provocando maior incidência de pragas e doenças. Houve inclusive a necessidade da interferência da EMBRAPA, no sentido de estabelecer ”vazio sanitário”, para o plantio de tomate industrial no Estado de Goiás, para diminuir a infestação da “mosca branca”, e conseguir o controle da praga; infelizmente os resultados não foram os esperados, e o geminivirus passou a ser um sério limitador para a cultura, e um importante fator de redução de produtividade, para o tomate industrial do Centro-Oeste.

Outros problemas fitossanitários ligados ao plantio do cedo, período das chuvas, com elevado nível de umidade, como fungos e bactérias, passaram a influenciar negativamente a produtividade, e provocaram significativos aumentos de custo, em especial, no uso de inseticidas e fungicidas, reduzindo o ganho dos produtores. Como conseqüência desses fatores: aumento de custos e redução de produtividade, com o agravante de ter havido aumento na necessidade de contratação de áreas de plantio na região, a qualidade dos plantios foi muito prejudicada, inclusive com repetição de plantios na mesma área em anos seguidos. Menor produtividade, como conseqüência, mais área de plantio; pior qualidade de produtor e de área de plantio, como conseqüência, menor produtividade.

Esse é o nosso momento atual; de quase exportadores de polpa de tomate, estamos aumentando nossas importações, para atender as necessidades do mercado consumidor.

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