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Mulheres Rurais: avanço feminino no agro une gestão familiar e inovação

Pesquisa da ABAG aponta crescimento da presença feminina na tomada de decisões do setor, marcada por alta qualificação técnica e compromisso socioambiental Karla Saraiva de Ávila une conhecimento e dedicação à produção de grãos no RS. Crédito: Nilson Konrad Quando defendeu sua tese de doutorado, em 2015, Karla Saraiva de Ávila já tinha nos braços uma responsabilidade que não cabia nas páginas da pesquisa. A filha Rafaela ainda era bebê e, segundo a produtora, a amamentação fez parte daquele momento decisivo de sua formação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A cena reúne duas dimensões que seguem presentes em sua vida: o compromisso com o conhecimento e a construção de uma história em família. Hoje, engenheira agrônoma e doutora em melhoramento de plantas forrageiras, Karla participa das decisões de um negócio rural que cultiva mais de 4 mil hectares apenas de arroz e soja, em propriedades de Bagé e Dom Pedrito, no Rio Grande do Sul. Ao lado do marido, Rafael Rockenbach, define estratégias de produção, escolhe insumos e maquinário e acompanha o manejo das lavouras. Milho e pastagens de inverno, estas em Bagé, também integram as atividades da família. Entre a primeira área plantada e a escala atual, houve anos de estudo, investimentos e escolhas. Houve também a determinação de trabalhar em uma área pela qual sempre teve interesse, mesmo diante da preocupação inicial do pai com as oportunidades profissionais que encontraria. Às vésperas do Dia Internacional das Mulheres Rurais, celebrado em 15 de outubro, sua trajetória ajuda a dar rosto ao trabalho de mulheres que produzem alimentos, conduzem negócios e participam da continuidade das propriedades. A data foi instituída pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2007 e teve sua primeira celebração oficial em 2008, reconhecendo a contribuição das mulheres para o desenvolvimento rural, a segurança alimentar e o enfrentamento da pobreza.“Como mulher, esposa e mãe, tomar as decisões da lavoura junto com o meu marido não é apenas sobre produzir alimentos, mas sobre construir um legado, ensinar valores aos nossos filhos e provar que a liderança feminina no agro se faz com presença, parceria e dedicação”, afirma Karla. O caminho de volta à propriedade O plano inicial era buscar uma experiência profissional fora e, depois, voltar para trabalhar com a família. Karla foi morar em Porto Alegre, avançou nos estudos e construiu uma trajetória acadêmica que incluiu mestrado e doutorado. A aprovação em um concurso fora de sua região de origem fez o pai considerar que a filha poderia seguir definitivamente por outro caminho.Foi então que os dois conversaram sobre o retorno. Segundo Karla, o pai lhe disse que, se quisesse trabalhar com ele, precisaria desenvolver algo diferente da atividade que ele conduzia naquele momento, ligada à pecuária. A possibilidade abriu espaço para que ela começasse sua própria experiência na agricultura, por volta de 2011. Karla começou por conta própria, em uma lavoura de cerca de 80 hectares, com um trator de 75 cv de potência. A estrutura era pequena, mas marcou o início de sua trajetória como produtora rural, levando para o campo o conhecimento adquirido na universidade. A atividade ganhou escala à medida que ela e o marido, Rafael Rockenbach, passaram a trabalhar juntos. A parceria permitiu ampliar as áreas cultivadas e investir na renovação e na expansão do maquinário, com equipamentos capazes de atender às necessidades de uma operação maior e dar mais agilidade ao trabalho. Esse crescimento foi construído gradualmente, com decisões compartilhadas e a combinação das experiências do casal. À produção de arroz e soja somaram-se o milho e as pastagens, consolidando um negócio familiar em que Karla participa diretamente das escolhas sobre o manejo, os investimentos e o futuro das lavouras. Conhecimento que se transforma em decisão A produtora rural Karla Saraiva de Ávila com o marido e as filhas. Crédito: Nilson Konrad Na rotina de Karla, a formação técnica encontra um ambiente em que o planejamento precisa conviver com a incerteza. A programação de um dia inteiro pode mudar com a chegada da chuva. Em outros momentos, a seca exige rever expectativas e decisões. Produzir depende de acompanhar essas mudanças e responder a elas. É nesse contexto que a produtora identifica a contribuição de um olhar feminino que considera mais fraterno. Para ela, o campo exige força para enfrentar um trabalho pesado, mas também sensibilidade para lidar com aquilo que não se controla. Sua experiência encontra paralelo no estudo Perfil da Mulher do Agronegócio Brasileiro: 10 anos de transformação e avanços, divulgado pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), com correalização da Serasa Experian. Na base nacional analisada, as mulheres representam 40% dos 10,7 milhões de produtores rurais decisores. Entre as entrevistadas na etapa quantitativa, 77% têm ensino superior completo e 46% possuem pós-graduação. Os números ajudam a contextualizar trajetórias como a de Karla, em que a participação nas decisões é sustentada por formação, experiência e presença cotidiana na propriedade. Escolher uma máquina, avaliar um insumo ou definir o manejo significa assumir responsabilidades que repercutem na produção e no patrimônio da família. Tecnologia e cuidado com o solo Com foco na agricultura regenerativa e no manejo sustentável, Karla busca combinar produtividade e cuidado com a terra. Nas coxilhas da região, o relevo impõe desafios à operação de plantio e exige atenção à distribuição das sementes e à regularidade do trabalho. A produtora destaca o uso de um trator com transmissão CVT acoplado à plantadeira Valtra Momentum como parte dessa estratégia. Segundo ela, o conjunto contribui para uma emergência uniforme das plantas, etapa importante para o desenvolvimento da lavoura.A aplicação de biológicos no sulco, o uso de hastes descompactadoras e o controle digital de insumos também estão entre as soluções que procura integrar à operação. O objetivo é dar precisão ao plantio e melhorar as condições para que a cultura expresse seu potencial produtivo. “O plantio é o coração da lavoura. Quando a gente enxerga que todo o investimento em insumos, maquinário e trabalho é recompensado com uma germinação perfeita, isso nos dá a tranquilidade necessária para abraçar mais áreas e encarar novos desafios em família”, afirma. O domínio dessas ferramentas integra uma mudança mais ampla na atuação feminina no setor. Segundo a pesquisa da ABAG, 71% das gestoras entrevistadas afirmam operar tecnologias como drones, telemetria e sistemas de gestão de maneira independente ou parcialmente independente. Na análise de crédito, as produtoras da Região Sul apresentaram taxa de inadimplência de 5,4%, inferior à dos homens, conforme o levantamento. Na propriedade, os investimentos em inovação são avaliados junto com as necessidades da lavoura e os planos da família. Para Karla, produzir com segurança passa por compreender o solo, acompanhar o desempenho das operações e reunir condições para dar os próximos passos. Neste 15 de outubro, a história de Karla lembra que reconhecer as mulheres rurais significa enxergar sua contribuição em todas essas etapas: no trabalho diário, no conhecimento aplicado, na condução dos investimentos e nas decisões sobre o futuro. |